O trabalho do escritor é um dos que mais me intrigam. Transformar sentimentos, reações e sensações em palavras nem sempre é tarefa fácil, principalmente quando as palavras não vêm de dentro de nós. Para quem não entendeu, eu explico: escrever sobre o que há por dentro de mim é imensamente mais simples do que me colocar em situação inteiramente fictícia, a qual eu não tenha vivido ou presenciado.

Quando Fernando Pessoa disse que “o poeta é um fingidor”, expôs toda a flexibilidade de que um bom escritor é capaz. Como escrever sobre aquilo que não vem de mim? Como não transpirar minha tristeza, meus medos, minha euforia de maneira tão explícita? Como inserir num texto a emoção própria em pequenas doses, para não empobrecê-lo? Sim, porque todo texto carregado da emoção que vem do autor, se não for bem cuidado, torna-se repetitivo, um atentado contra a originalidade.

Não quero dizer que um texto não possa ter nenhum tipo de emoção; um texto sem emoção não arrebata o leitor (e isso falo com base nas experiências que tenho como leitora). Arrisco-me a dizer, no entanto, que um escritor, antes de trabalhar com as palavras, precisa trabalhar sua mente, para que até seus conflitos sejam uma obra de arte.

Gosto bastante de epígrafes, aqueles fragmentos de texto frequentemente encontrados no início de uma narrativa, seja conto, seja romance, que dizem muito (ou pelo menos tentam) sobre o conteúdo subseqüente. Algumas epígrafes fracassam, a escolha do autor nem sempre é boa; mas outras, em compensação, nos dão boa ideia do que encontraremos em seguida, além de trazerem referências sobre obras que possam ser de nosso interesse.

Justamente porque dou tanta atenção às epígrafes, por vezes tão injustiçadas, é que decidi reservar um espaço a elas aqui no blogue. De tempos em tempos, trarei fragmentos marcantes, tanto pela intensidade quanto pela sua importância no contexto das obras às quais pertencem.

Hoje, apresento-lhes a epígrafe do romance “Reparação”, escrito por Ian Mcewan. Poucas vezes li uma epígrafe que se encaixasse tão bem numa obra. Para quem não conhece nem o fragmento nem o romance de Mcewan, fica a dica de duas ótimas leituras, ambas tratando das tragédias que um mal-entendido pode causar.

Cara senhorita Morland, pense o quanto são horrorosas as suspeitas que tem nutrido. Em que se fundamentam tais julgamentos? Pense em que país e em que era vivemos. Lembre que somos ingleses, que somos cristãos. Consulte seu próprio entendimento, seu senso do que é provável, sua observação do que se passa à sua volta. Como nossa formação poderia nos preparar para tais atrocidades? Como nossas leis seriam coniventes com elas? De que modo coisas assim poderiam ser perpetradas sem que ninguém delas soubesse num país como este, em que as relações sociais e literárias são como são, em que cada homem está cercado por toda uma vizinhança de espiões voluntários, e as estradas e os jornais deixam tudo às claras? Querida senhorita Morland, que idéias a senhorita tem se permitido conceber?"

Haviam chegado ao final da galeria, e com lágrimas de vergonha ela foi embora correndo para seu quarto.

Jane Austen, A Abadia de Northanger

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Arma Poderosa

Capa de "o Jogo do Anjo"

De uma das melhores leituras que fiz este ano: O jogo do Anjo, escrito por Carlos Ruiz Zafón:

 

O talento natural é como a força de um atleta. Alguém pode nascer com maior ou menor capacidade, mas ninguém chega a ser um atleta simplesmente porque nasceu alto, forte ou rápido. O que faz o atleta, ou o artista, é o trabalho, o domínio do ofício e a técnica. A inteligência inata é simplesmente munição. Para chegar a fazer alguma coisa com ela é necessário transformar sua mente numa arma de precisão.

Eu tinha dois blogues: o mais antigo era A Garota das Palavras, meu blogue pessoal, hospedado no Blogger. Lá eu falava de tudo um pouco e de vez em quando publicava alguns minicontos. Depois, criei o Coisa de quem Lê, um blogue sobre livros, que nem chegou a deslanchar.

De repente, parei tudo, havia alguma coisa errada. Eu gostava do nome do primeiro e da proposta do segundo. Por que não ousar um pouco e mudar? Não havia motivo para não fazê-lo. Eu sentia que estava tudo fora de lugar, meu querido blogue pessoal era um organismo sem forma; pelo segundo blogue, eu nem cheguei a me apaixonar; melhor assim.

Por isso, resolvi criar este espaço, para que tudo se concentre nele: minhas conversas sobre literatura, cinema e música, além de alguma ficção de vez em quando.

Enquanto eu preparo um texto novo, dê uma olhadinha na minha lista de livros lidos em 2009 ou na página que descreve melhor quem está por trás deste site.