Quem visse a moça vestida de cor-de-rosa andando pela calçada pensaria que toda a inocência estava presa nas palmas das mãos pequeninas.
Pensamento enganoso esse! A inocência da moça era uma capa clara e fina, quase transparente; mas só deixava os olhos mais atentos verem o que havia por trás dela.
E o que havia era sonho, cicatriz, nuvem; e fragmentos coloridos e pontudos que insistiam em machucar a moça.
O sonho a empurrava para frente, tentando afastar os pedacinhos pontudos; ensinavam suas pernas a darem cada passo. A moça confiava no sonho, mas era difícil esquecer dos dolorosos fragmentos.
Ela não os queria mais, cansara-se dos fragmentos da vida e dos fins de histórias interrompidas antes mesmo de ganharem um enredo. E só por isso o sonho continuava ali, sustentando os pés que caminhavam dentro de sapatos cor-de-rosa.
E a ela só restava tentar, tentar até desmaiar; porque nada ainda estava terminado.

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