Eis o que a influência de um dia de chuva pode causar:
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A chuva que agora caía dentro dela apagou o fogo que outrora havia, brilhava e queimava no mesmo corpo. Tudo agora era água; água que caía de dentro dos olhos, mas
não ia para fora; voltava para dentro numa inundação sem fim. O jardim recém-plantado, que começava a florir, jazia agora destruído; as rosas brancas, as violetas, as margaridas e os lírios pareciam chorar a mesma água que vinha dos olhos em desespero. Quem soubesse interpretar o lamento das plantas saberia que choravam.
Ela desistira dos jardins. Não era capaz de plantá-los mais fortes que as tormentas; cansou-se de vê-los destruídos pela água e pela desesperança. Ela desistira da beleza e agora preferia contemplá-la apenas nos jardins vizinhos, de quem não conhecia o sofrimento, mas duvidava de que houvesse tanta chuva e tanto trabalho em vão para marcar sua existência. Certamente aqueles jardins, tão bonitos e bem cuidados, onde o sol brilhava e dava vida às flores multicoloridas, pertenciam a mãos mais experientes e a olhos sem nuvens.
De repente, no meio das águas que não paravam de subir, ela vislumbrou reflexos de imagens ainda difusas. Pouco a pouco, rostos e cenas tomaram forma e reavivaram suas lembranças. Sentiu uma dor imensa que percorria todo o seu corpo; sentia o vazio deixado pelas coisas que poderiam ser suas, mas que se tornaram alheias. Perguntou-se se todas aquelas nuvens, toda aquela água e toda aquela destruição das flores perfeitas não seriam obra de suas próprias mãos; a essa pergunta, ela era tentada a responder, mas nunca poderia confirmar a veracidade do que concluiria.
Em meio à dor, percebeu que encolhia; diminuía cada vez mais. Na verdade, ia se dissolvendo e misturando-se à imensidão daquelas águas que brotavam dela e voltavam para ela. Não, não era açúcar o que constituía sua matéria, não poderia ser; nem mesmo ela sabia o que havia em si que tão facilmente a fazia derreter e ser consumida por aquela desolação. Antes de desaparecer, ainda conseguiu imaginar-se ressurgindo; se um dia o sol voltasse a iluminar o jardim devastado, banhando de luz aquelas plantas sem esperança e extinguindo com o calor as águas que persistiam, quem sabe aquela sua matéria frágil que o tempo ajudara a formar pudesse ser, outra vez, a base para novos dias.
