dezembro 2007

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Cacos

Há pessoas que não sabem do que são feitas.

Imaginam-se de bronze, de ouro, de pedras raras e preciosas…

Batem, acertam e vencem, com a dureza de que tanto se orgulham.

Até descobrirem, boquiabertas, que são feitas de vidro; qualquer pedregulho é suficiente para quebrá-las e espalhar seus cacos pelo chão.


Volta

A pessoa tinha mira.

Sabia exatamente onde acertar, qualquer fosse o ponto.

Olhou.

Suspirou profundamente.

Mirou.

Encheu o coração de raiva.

Atirou.

Sorriu de satisfação.

Voltou.

Achou que lançara um dardo,

esqueceu que estava com um bumerangue.

Todos nós esquecemos:

há apenas bumerangues em nossas mãos.

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Esse texto é da querida Cássia Pires. Eu o levarei para sempre na minha bagagem de preciosidades e verdades incontestáveis. Levarei também a certeza de que há tempo para tudo, inclusive para que os bumerangues atirados com tanta força voltem às mãos de quem os arremessou. Simplesmente a lei da natureza.

O vídeo (uma das mais belas parcerias que já vi) foi escolhido por causa disto mesmo: do tempo, que reserva lugar para todas as coisas.

A letra da música está aqui, e a tradução está aqui.

Gosto muito de ler sobre paixão; de escrever, mais ainda. Friso que não falo só daquela paixão que acontece entre duas pessoas, ou daquela que arrebata o coração de um só e o expõe diante de alguém que não compartilha o mesmo sentimento; essa é só uma parte do todo que a palavra representa. Falo de paixão num sentido mais amplo: paixão por um aspecto da vida tão particular para alguém, que são raras as pessoas que conseguem compreendê-la, ao olhar para a situação de uma perspectiva exterior.

Saiu hoje uma reportagem na Folha de S.Paulo (só para assinantes UOL) que ilustra muito bem o que quero dizer. A nova-iorquina Julie Powell, uma secretária que odiava o emprego, criou, em 2002, um blogue onde decidiu contar suas experiências como mestre-cuca, com receitas do livro Mastering the Art of French Cook, da cozinheira norte-americana Julia Child. Para resumir a história, seu projeto, recentemente, virou livro e, no futuro, vai virar filme.

Julie Powell precisava de algo que não permitisse que sua vida se transformasse numa seqüência de dias intermináveis, embalados por uma rotina insuportável. Cada um tem sua salvação; a dela estava na comida, nas receitas, nas noites em claro e nos fracassos que protagonizou. A paixão não faz as trilhas ficarem mais suaves, ela só as torna mais suportáveis; não muda a essência das coisas, só muda a nossa própria, a fim de que a amargura não tome conta de nós quando as coisas não saem como queremos.

É por isso que não acredito em sorte. Acredito em determinação, em convicção daquilo que se é (e isso independe das circunstâncias) e, por que não dizer, no acaso, na atuação de uma força divina, não importa o nome que você dê a isso.

Não sei se Julie tinha a pretensão de que seus relatos lhe trouxessem sucesso, mas é impossível não concluir que hoje ela é, se não totalmente, um pouco mais feliz, graças à sua paixão e ao que fez com ela.

O Fim

Reclinou a cabeça porque não suportava mais o peso do coração pulsando sem parar. Não adiantou, ele não parava de pulsar, recusava-se a negar a própria existência. Era hora de retirar o tapete vermelho do chão e o banquete de sobre a mesa. Não se despiria a ninguém, não revelaria que a paz que exibia não alcançava além do véu.

Era hora de enrolar o tapete e guardá-lo outra vez; talvez escondê-lo para sempre onde a memória não pudesse encontrá-lo até o fim dos dias. O banquete seria só dela, mas seria pela última vez. Aquela receita, ela jurou, nunca mais seria preparada, porque nunca mais haveria o mesmo amor.