janeiro 2008

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Desrespeito

Quando eu penso que as coisas não podem piorar, elas pioram. Nada tem me assustado mais ultimamente que o egoísmo do ser humano. Hoje, navegando despretensiosamente por aí, li uma matéria dizendo que, nos meses de férias (janeiro e fevereiro) aumenta o abandono de animais nas cidades. Ouvir ou ler uma notícia assim me abala como poucas coisas. O que leva uma pessoa a simplesmente abandonar um outro ser vivo? Ser esse que foi escolhido para morar com uma família ou com uma só pessoa (não importa)? Mais que imaturidade, trata-se, como eu já disse, de puro egoísmo. Se você quer aproveitar suas férias longe de casa, dê conta das conseqüências que isso traz.

Algumas pessoas devem sentir um tipo de prazer mórbido ao maltratar outros seres, talvez por causa da fragilidade que eles demonstram. Então, acham-se no direito de decidir um destino, ainda que não o seu; contanto que seja o destino de alguém mais fraco (um cão, um gato, um pássaro), tudo bem, não há problema. Num momento de euforia ou faniquito de uma criança, compra-se um animal (um bem bonitinho, de preferência um filhote, por exemplo), leva-se esse animal para casa e depois nota-se que aquele bicho não correspondeu às expectativas; é muito desobediente, cresceu demais, e outros disparates. Aí, na calada da noite, o animal é jogado na rua; para piorar, tem gente que literalmente joga os bichinhos das janelas de carros em movimento! Eu já presenciei um ato desses. Não foi na calada da noite, mas isso não torna o ato menos cruel. Se eu tivesse o telefone de alguma sociedade protetora dos animais em mãos e tivesse condições de anotar a placa do veículo, talvez pudesse ter salvado a vida de quatro cachorrinhos e, por um milagre, punido o neurótico que dirigia o carro porque, segundo a Lei de Crimes Ambientais, maltratar animais, sejam eles domésticos ou silvestres, dá cadeia. Naquele dia, fiquei decepcionada comigo, com a minha impotência diante de uma injustiça.

Acredito que há muita gente que, apesar da idade, não sabe criar filhos. Diante de qualquer escândalo que uma criança dá em frente a uma loja de animais, os pais sedem aos apelos infantis e levam um “exemplar” para casa, sem avaliar suas próprias condições e sem saber que aquele cão, gato, ou o que quer que seja, vai interferir na rotina de todos e sentir toda sorte de emoção. Não seria bem mais fácil explicar à criança chiliquenta os motivos pelos quais ela não pode ter um animal de estimação? Sem sombra de dúvida, essa criança será um ser humano bem consciente no futuro.

Fico triste ao perceber que, a cada dia que passa, é só a vida de cada um que importa. A Amazônia tem sido detonada e ninguém liga; os animais têm sido maltratados e isso já virou rotina, é parte do cotidiano das cidades. Eu poderia citar inúmeros exemplos aqui, que vão muito além do desrespeito à natureza: executivos que só pensam no próprio dinheiro, mães que jogam bebês em latas de lixo como se estes não fossem parte delas mesmas e resultado de sua irresponsabilidade, atos de discriminação que vão desde os pequenos preconceitos nossos de cada dia até demonstrações explícitas de intolerância… Eu poderia fazer aqui uma lista enorme, mas isso só deixaria o texto imenso e o tornaria ainda mais deprimente. Você provavelmente fará sua própria lista e, se tiver um pingo de senso crítico, saberá que eu não estou exagerando. Se tiver sensibilidade, melhor para você e para os outros, sejam humanos ou não.

Da próxima vez que alguém me disser ter sentido saudade de algo que ainda não viu, eu entenderei:

Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade.”

Trecho da crônica “Jardim”, de Rubem Alves. Aqui tem mais maravilhas do autor.

2008 já deu seus primeiros passos, e eu não queria iniciá-lo aqui com textos reflexivos. Pensando nisso, resolvi falar sobre algo que muito me agrada: o mundo do entretenimento.

Não gosto muito de “apostar” em quem serão os artistas do ano; fico bastante irritada com títulos de matérias do tipo coisas que você precisa ouvir em 2008. Porém, abri uma exceção para uma lista que o Zeca Camargo, apresentador do “Fantástico” e profundo conhecedor de música, fez em seu blogue enumerando os 12 melhores discos que você não ouviu no ano de 2007. Como eu realmente não fazia a mínima idéia de que os artistas citados no texto existiam, e como a música é parte essencial da minha vida desde sempre, fica para 2008 a descoberta de coisas que vão muito além do trivial a que nos acostumamos toda vez que ligamos o rádio; músicas em sua maioria de fórmula pronta, que de tanto ouvirmos, acabamos gostando.

Esta semana, notícias muito bacanas têm circulado pelos sites e colunas de entretenimento. Gostei bastante de uma em especial: o Radiohead está liderando o ranking britânico de vendas de discos; não, não se trata do álbum para download, que nem está mais disponível no site que a banda criou para promovê-lo. Trata-se, no entanto, do álbum físico; sim, ao contrário do que muita gente pensa, há pessoas que compram cds, e a indústria fonográfica não está ameaçada pela “praga” que é a “pirataria virtual”, como as gravadoras gostam de salientar. O Radiohead inovou; arriscou, pelo fato de permitir que os fãs escolhessem quanto queriam pagar pelo download de “In Rainbows”. Por isso mesmo, se deu muito, muito bem; e provou que o argumento das grandes gravadoras, de que a Internet ameaça o mercado da música, é infundado; precisa-se somente de um pouco de inteligência para que todos ganhem.

É claro que minha satisfação pela notícia sobre o Radiohead tem um quê de tietagem (sou fã da banda desde meus nove anos de idade, época em que eles lançaram seu primeiro disco — “Pablo Honey” —, entre cujas faixas está a já clássica “Creep”); mas não há como negar a importância e a notoriedade que a banda tem conquistado por causa do que decidiu fazer com “In Rainbows”.

E amanhã é o dia que eu venho aguardando com ansiedade: o dia em que estréia oficialmente “Desejo e Reparação”, filme baseado no romance quase homônimo escrito por Ian mcewan, meu atual escritor favorito. “Reparação”, o romance, é belíssimo. Mais que uma história de amor recheada de drama e sofrimento, é um retrato bastante realista da mente humana, revelando seus defeitos e virtudes; não fosse isso, além da capacidade do autor de construir uma narrativa consistente e detalhada em que é possível visualizar cada cena, a história seria banal. O que eu mais gosto em “Reparação”, porém, é a demonstração da teoria do caos que ele faz — de forma brilhante, diga-se de passagem. Uma sucessão de mal-entendidos, que começa por causa da imaturidade de alguém, provoca uma catástrofe na vida de muitos; daí ser necessária a reparação.

O filme, dirigido por Joe Wright, o mesmo de “Orgulho e Preconceito”, foi aprovado por Mcewan; já é razão suficiente para eu apostar minhas fichas nele.

Essas foram as minhas primeiras impressões do mundo pop; primeira de muitas, espero. O ano começou bem para quem gosta de entretenimento de qualidade; estou animada e não quero perder nada. E como eu não poderia deixar de dizer, desejo um ótimo 2008 para todos nós.