Quando eu penso que as coisas não podem piorar, elas pioram. Nada tem me assustado mais ultimamente que o egoísmo do ser humano. Hoje, navegando despretensiosamente por aí, li uma matéria dizendo que, nos meses de férias (janeiro e fevereiro) aumenta o abandono de animais nas cidades. Ouvir ou ler uma notícia assim me abala como poucas coisas. O que leva uma pessoa a simplesmente abandonar um outro ser vivo? Ser esse que foi escolhido para morar com uma família ou com uma só pessoa (não importa)? Mais que imaturidade, trata-se, como eu já disse, de puro egoísmo. Se você quer aproveitar suas férias longe de casa, dê conta das conseqüências que isso traz.
Algumas pessoas devem sentir um tipo de prazer mórbido ao maltratar outros seres, talvez por causa da fragilidade que eles demonstram. Então, acham-se no direito de decidir um destino, ainda que não o seu; contanto que seja o destino de alguém mais fraco (um cão, um gato, um pássaro), tudo bem, não há problema. Num momento de euforia ou faniquito de uma criança, compra-se um animal (um bem bonitinho, de preferência um filhote, por exemplo), leva-se esse animal para casa e depois nota-se que aquele bicho não correspondeu às expectativas; é muito desobediente, cresceu demais, e outros disparates. Aí, na calada da noite, o animal é jogado na rua; para piorar, tem gente que literalmente joga os bichinhos das janelas de carros em movimento! Eu já presenciei um ato desses. Não foi na calada da noite, mas isso não torna o ato menos cruel. Se eu tivesse o telefone de alguma sociedade protetora dos animais em mãos e tivesse condições de anotar a placa do veículo, talvez pudesse ter salvado a vida de quatro cachorrinhos e, por um milagre, punido o neurótico que dirigia o carro porque, segundo a Lei de Crimes Ambientais, maltratar animais, sejam eles domésticos ou silvestres, dá cadeia. Naquele dia, fiquei decepcionada comigo, com a minha impotência diante de uma injustiça.
Acredito que há muita gente que, apesar da idade, não sabe criar filhos. Diante de qualquer escândalo que uma criança dá em frente a uma loja de animais, os pais sedem aos apelos infantis e levam um “exemplar” para casa, sem avaliar suas próprias condições e sem saber que aquele cão, gato, ou o que quer que seja, vai interferir na rotina de todos e sentir toda sorte de emoção. Não seria bem mais fácil explicar à criança chiliquenta os motivos pelos quais ela não pode ter um animal de estimação? Sem sombra de dúvida, essa criança será um ser humano bem consciente no futuro.
Fico triste ao perceber que, a cada dia que passa, é só a vida de cada um que importa. A Amazônia tem sido detonada e ninguém liga; os animais têm sido maltratados e isso já virou rotina, é parte do cotidiano das cidades. Eu poderia citar inúmeros exemplos aqui, que vão muito além do desrespeito à natureza: executivos que só pensam no próprio dinheiro, mães que jogam bebês em latas de lixo como se estes não fossem parte delas mesmas e resultado de sua irresponsabilidade, atos de discriminação que vão desde os pequenos preconceitos nossos de cada dia até demonstrações explícitas de intolerância… Eu poderia fazer aqui uma lista enorme, mas isso só deixaria o texto imenso e o tornaria ainda mais deprimente. Você provavelmente fará sua própria lista e, se tiver um pingo de senso crítico, saberá que eu não estou exagerando. Se tiver sensibilidade, melhor para você e para os outros, sejam humanos ou não.
