fevereiro 2008

Você está navegando pelos arquivos de fevereiro 2008.

Caos

Não consigo escrever. Não consigo pensar. Ou melhor, pensar eu até consigo, mas meus pensamentos têm sido monocromáticos; de uma nota só; fixos… E é chato demais vir aqui e despejá-los desesperadamente, como se os leitores tivessem a obrigação de prestar atenção às minhas divagações e à minha inércia.

Tem um mar revolto aqui dentro e eu preciso entender o que anda acontecendo. Preciso esperar essas ondas todas pararem de bater nas minhas pedras, que espero serem fortes o suficiente. Enquanto meu silêncio contempla, respeitosamente, o barulho desse mar que ainda me dá medo e me inspira uma certa melancolia, nada posso fazer. Apenas esperar e deixar todas as folhas do mundo brancas, exatamente como foram feitas. Quando minhas palavras deixarem de ser à toa e mudarem de tom, voltarei a escrevê-las com todo o prazer desse mundo.

Luz

— Você viu? — digo com expressão de surpresa.

— O quê?

— O que o seu sorriso fez.

— E o que foi?

— Luz.

 

Trecho do conto “Luz”, presente no livro “O Doce Vermelho das Beterrabas“, de João Batista Ferreira.

Achei esse trecho fantástico porque há momentos em que só uma única luz é capaz de iluminar o caminho de alguém. E às vezes ela custa a aparecer…

A borboleta é um inseto.

A primeira reação que essa frase causa em alguns é um arrepio na espinha, uma expressão de nojo no olhar e nas palavras. Mas a borboleta é aquilo que muitas pessoas tentam ser ao longo da vida.

A borboleta não nasce como borboleta; é uma lagarta feia e voraz. Come, destrói, não produz nada. E para ela, tudo bem.

Depois, transforma-se numa pupa, o que não é lá grande coisa. Começa a viver isolada, dentro de uma casa que ela mesma construiu e não sai de lá até estar pronta para a vida novamente. Espera, tem paciência; sabe que a natureza cuidará dela como ninguém. É humilde…

Um dia, como uma rosa que não cabe mais no botão, aquele inseto decide que é hora de abandonar sua casa. Esforça-se tremendamente. O processo é doloroso, mas ela não pode receber ajuda de ninguém. Aquilo que, para quem olha de cima, é tão fácil de ser transposto, para a nossa pupa é questão de vida ou morte; é um esforço descomunal, um desafio quase maior que o que pode suportar. Mas ela sabe que, se alguém ajudá-la, jamais poderá voar, pois não será forte o suficiente; por isso, suporta com paciência a sua solidão.

O tempo passa e, de tanto esperar e tentar, ela rompe o casulo. Voa, então, apreciando o mundo que, a partir de agora, ela vê de cima; sem superioridade, porém. Sabe ser borboleta; portanto, sabe muito bem qual é o seu lugar na imensidão que acabara de descobrir.

E a borboleta segue seu caminho, pronta para a vida breve que a natureza lhe concede daí em diante, orgulhosa como só ela pode ser de si mesma. Por trás de sua fragilidade, existe uma história que apenas quem é forte é capaz de viver.

Descobrimento

Gisela dizia não acreditar em destino; ao contrário, dizia que tudo era mutável, as coisas iam-se transformando, cada um fazia sua própria história.

Dentro dela, porém, não era assim. Não sabia bem o que era seu e o que era dos outros; assim, dava tudo aos outros, restando-lhe apenas o vazio. O amor que tanto desejava não era seu, simplesmente nunca seria. Devia ser para outra pessoa, não para ela, porque o mundo queria assim. O destino dos outros, decidido bem antes que Gisela entrasse em cena, não permitia alterações. Sentia-se uma intrusa. Apossar-se do amor, aquele amor que começava dentro dela e expandia-se alheio a qualquer controle, era praticar uma maldade.

Mas isso, Gisela percebeu de súbito, não era ceder ao destino? Sim, era; era admitir a imutabilidade; era negar o próprio desejo.

De tanto olhar a vida de fora, não sabia mais lutar, sua consciência adormecera. Até aquele dia súbito, em que tudo fez sentido e a consciência exigiu que ela entrasse, para mudar o curso dos seus dias. Gisela pulava de alegria, finalmente; nada, nunca mais, seria igual. Ali estava uma mulher inteira, uma mulher como as outras, que merecia tudo que reservara só aos outros. E, embora não soubesse bem como, faria tudo diferente, pois agora, sentia-se incapaz, não de mudar, mas de negar-se.