abril 2008

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Sorrir sem ter por quê.

Amar sem o ser.

Perceber sem ser percebido.

Criar para deixar ir.

Escutar e silenciar.

Seguir com o coração aos pulos.

Andar, mesmo quando todo o seu ser pede descanso.

Crer sem ver.

Cativar e aceitar.

Deixar-se ser cativado.

Sentir dor e chorar.

Mudar de rota de vez em quando.

Espalhar boas e sinceras palavras.

Esquecer as ruins.

E, depois de tudo isso, sentir o dia passar. Em paz.


Descobri o curta “Tarantino’s Mind” meio tardiamente; lamento não tê-lo feito antes. Para quem gosta da obra de Quentin Tarantino, o curta, dirigido pelo coletivo 300ml e produzido pela Republica Filmes, é diversão garantida. Para mim, juntou a fome com a vontade de comer; afinal de contas, não é todo dia que produzem um filme (ainda que seja um curta) sobre um dos melhores diretores de cinema do mundo, com um dos mais talentosos atores brasileiros de nossos dias (ainda não assisti a nenhuma atuação sua de que não tenha gostado) e uma das mais gratas surpresas cinematográficas que já tive.

Se você é fã de Tarantino e gosta de teorias da conspiração, divirta-se, o filminho é brilhante; se não conhece obras-primas como Pulp Fiction e Kill
Bill (só para citar os meus favoritos), aproveite o feriado e dê uma chance ao incomum.

Quando criança, disseram-lhe que as roseiras eram belas.

Na primeira vez em que tocou em uma, maravilhada pela chance de conhecer aquilo de que tanto lhe falavam, espetou o dedo num espinho. Sangrou.

Durante muito tempo, ela nunca mais quis saber de roseiras, não podia nem ouvir falar delas.

Até que esqueceu a dor. Mais uma roseira; mais euforia dentro dela; mais um toque; mais um espinho; mais sangue; mais dor.

Um dia, sonhou com uma rosa branca. Sempre gostou mais das brancas; as vermelhas lembravam sangue. A rosa branca estava só, ela perguntava-se de onde havia vindo; não podia ser das roseiras, não das que conhecia. Aquelas só tinham espinhos, não tinham rosa alguma. Mas, se não tinham rosas, por que, então, eram roseiras? Havia algo errado.

Aquela rosa branca a fez esquecer a dor. Outra vez. A memória e as coisas lindas eram traiçoeiras. Não fossem elas, jamais seguiria; graças a elas, seguia, embora a passos cada vez mais lentos. A rosa solitária desapareceu tão de repente quanto surgiu. Deixou-a só.

Ela queria parar, mas as roseiras a fascinavam. Se não havia rosas, por que roseiras?

E seguia, com o que sobrara dos espinhos e com esperança: para ela, para as rosas brancas e, um dia, quem sabe, para as vermelhas também.

Quero que saiba, meu carneirinho, que não posso oferecer nada mais do que te ofereço agora. Posso me separar da minha mulher e dos meus filhos para nos casarmos, quer se casar comigo? Hem?… Mas isso também não significa esse para sempre que você tem o mau gosto de repetir. Já me casei umas quatro ou cinco vezes, esta seria a sexta ou sétima, nem sei!… É o que você quer? Não, não é, eu sei que não. Você quer ser amada como as heroínas dos livros da sua mãe. Quando na realidade o amor é tão simples… Veja-o como uma flor que nasce e que morre em seguida porque tem que morrer. Nada de querer guardar a flor dentro de um livro, não existe coisa mais triste no mundo do que fingir que há vida onde a vida acabou.

 

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Trecho do romance “Verão no Aquário“, de Lygia Fagundes Telles (uma de minhas escritoras favoritas). Se há alguém que tem lugar certo na lista seleta das pessoas que eu gostaria de conhecer, esse alguém é Lygia. Ela vai, na sua escrita, da delicadeza à realidade crua num piscar de olhos. Assim como todos somos capazes de ir; não só na escrita, mas na vida também.

Equilíbrio

Enquanto uns seguem achando que o mundo lhes pertence, outros não sabem sequer aceitar o que lhes é dado.

Se dar exige humildade, receber exige dignidade.