junho 2008

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As caixinhas enfileiravam-se por toda a prateleira, que tomava completamente a parede branca. Pequenas e grandes; de madeira, plástico, cartão; quadradas, redondas, ovais; brancas, cor-de-rosa, estampadas com flores.

Eram diferentes, mas todas guardavam fragmentos de quem as colecionava. Ela amava suas caixas, a coleção de que nunca se desfaria; mas o que havia dentro delas eram objetos de um amor maior, que a enchiam até fazê-la transbordar de alegria e de saudade.

Aqueles não eram fragmentos seus; eram parte daqueles que deixaram pedaços de si que, de tão perfeitos, encaixavam-se nela como se tivessem molde exclusivo.

Entre tantas cores e formas, havia um coração; não era vermelho, era prateado. A única caixa trancada. Uma pequena fechadura destacava-se da parte frontal do coração. Era ali dentro que ela guardava os menores e mais preciosos bens; esses não eram de ninguém mais senão dela mesma. Eram pedras; ela sabia que, um dia, necessitariam delas tanto quanto ela necessitava dá-las para alguém. O rubi-oriental, ela guardava para os dias que precisasse encher de paixão; a esmeralda serviria para quando o amado precisasse de paz; seria a maneira que ela encontraria para lembrá-lo da esperança; o diamante bruto, o mais bem guardado, era a história que um dia começaria; demoraria a ser lapidado, a se tornar brilhante. Mas essa não seria uma tarefa só dela, ela precisaria de ajuda, uma ajuda que partiria de alguém que ainda viria. Seria o amado, merecedor daqueles tesouros; o amado, que possuía a pequena e única chave capaz de abrir o coração de prata.

Dentro do Frasco

Ela voltou para casa feliz, encantada. Dentro da bolsa, o frasco de perfume recém-adquirido. Aquele líquido, a mistura sublime dos aromas, integraria, daquele momento em diante, sua identidade. O frasco roxo guardava a síntese do que queria exalar: a delicadeza, o desejo, a expectativa, a presença discreta.

Ela se orgulhava. Orgulhava-se de perceber pelo aroma dos seres e das coisas traços ocultos, ignorados pelos outros sentidos: altivez, pretensão, simplicidade, sensualidade. Por isso, demorava-se tanto no ritual de escolher a fragrância que contaria ao mundo quem ela era, a fragrância que a acompanharia dia após dia.

Sentia um pesar inescapável ao pensar que as essências eram tão negligenciadas por outras pessoas, gente incapaz de notar as mensagens transmitidas por elas. Ela sabia que só era preciso isto mesmo: notar, perceber; porque certas coisas não existem para serem entendidas ou ditas.

Com o frasco na mão, via sua felicidade se dissipar. Ela lamentava somente o fato de que aquelas sensações e delícias não podiam ultrapassar a virtualidade, eram incapazes de comunicar aquilo que não pode ser expresso pelas palavras que voam por ondas, trafegando por quilômetros até pousarem impunes em alguma tela mornamente iluminada.

Da Beleza

Pousa sôbre êsses espetáculos infatigáveis

uma sonora ou silenciosa canção:

flor do espírito, desinteressada e efêmera.

 

Por ela, os homens te conhecerão:

por ela, os tempos versáteis saberão

que o mundo ficou mais belo, ainda que inutilmente,

quando por êle andou teu coração.

 

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Epigrama Nº 1, do livro “Viagem”, de Cecília Meireles.

 

É preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas da vida. A música. Este céu que nem promete chuva. Aquela estrelinha nascendo ali… está vendo aquela estrelinha? Há milênios não tem feito nada, não guiou os reis magos, nem os pastores, nem os marinheiros perdidos… apenas brilha. Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a beleza.

 

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Trecho do romance “Ciranda de Pedra”, de Lygia Fagundes Telles.

 

Que vida existia em mim antes dela? Beijos em arremedo, afetos feito pressa, mesquinharias de paixão. E, agora, o beijo de Annika, a visão mais clara da divindade, a epifania mais evidente, o momento de graça permitido. Ela me oferecia a eternidade e eu pensava em partir. Por quê? Não, não mais. Devo despertá-la, devo reafirmar. Não, que ela durma em paz, só mais um pouco para que eu desfrute da beleza que o tempo há de ignorar.

 

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Trecho do conto “Lírica”, presente no livro “O Reino das Cebolas”, de Cíntia Moscovich.

Esquecimento

Não tem jeito: um dia a gente percebe que, para conseguir se entregar à vida de verdade, primeiro é preciso se entregar ao próprio sentimento. E aceitá-lo assim como ele é, porque ele sempre será maior do que a vontade de Pará-lo.

Às vezes, o que nos salva é trancar toda a lógica e deixar o coração abrir todas as portas, até aquelas fechadas há muito tempo dentro da gente.