O Coração de Prata

As caixinhas enfileiravam-se por toda a prateleira, que tomava completamente a parede branca. Pequenas e grandes; de madeira, plástico, cartão; quadradas, redondas, ovais; brancas, cor-de-rosa, estampadas com flores.

Eram diferentes, mas todas guardavam fragmentos de quem as colecionava. Ela amava suas caixas, a coleção de que nunca se desfaria; mas o que havia dentro delas eram objetos de um amor maior, que a enchiam até fazê-la transbordar de alegria e de saudade.

Aqueles não eram fragmentos seus; eram parte daqueles que deixaram pedaços de si que, de tão perfeitos, encaixavam-se nela como se tivessem molde exclusivo.

Entre tantas cores e formas, havia um coração; não era vermelho, era prateado. A única caixa trancada. Uma pequena fechadura destacava-se da parte frontal do coração. Era ali dentro que ela guardava os menores e mais preciosos bens; esses não eram de ninguém mais senão dela mesma. Eram pedras; ela sabia que, um dia, necessitariam delas tanto quanto ela necessitava dá-las para alguém. O rubi-oriental, ela guardava para os dias que precisasse encher de paixão; a esmeralda serviria para quando o amado precisasse de paz; seria a maneira que ela encontraria para lembrá-lo da esperança; o diamante bruto, o mais bem guardado, era a história que um dia começaria; demoraria a ser lapidado, a se tornar brilhante. Mas essa não seria uma tarefa só dela, ela precisaria de ajuda, uma ajuda que partiria de alguém que ainda viria. Seria o amado, merecedor daqueles tesouros; o amado, que possuía a pequena e única chave capaz de abrir o coração de prata.

  1. . samanta vanz .’s avatar

    deixar o coração em caixas, como tesouros guardados. às vezes me pergunto se realmente é uma atitude sábia…
    acho que os corações devem ser preservados, mas um coração preservado não marca tudo aquilo que sofremos, que vivemos.
    mas o amor sempre terá a chave para libertá-lo.

    beijos.

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  2. Raquel’s avatar

    Bom dia Lais,

    agradeço e retribuo sua visita no Jane Austen em português. Deixei um recadinho lá para você.

    Um abraço, Raquel

    PS: vi que na sua lista de desejos está Do leitor ao navegador, que tenho aqui em casa e está esgotado na Cultura. Dica: compre na livraria da Unesp.

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  3. Anonymous’s avatar

    Tão lindo!
    Não tinha lido esse ainda.
    Você escreve lindamente,como
    poucos.

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