julho 2008

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Constatações

Embora seja difícil admitir, é mais fácil encarar de uma vez a verdade do que procurar migalhas de ilusão em cada canto.
A diferença entre olhar de frente a verdade e enganar os olhos com pequenas fantasias está no tempo que a dor leva para se manifestar.
Não adiantava, ela sabia, conquistar a lua; não adiantava conquistar o país, o planeta, o universo e o que quer que exista além dele, seja lá o que possa conter essa imensidão chamada universo; fácil de definir, difícil de imaginar.
Não, não lhe adiantavam as grandezas, porque sempre haveria um vazio. Não, um vazio não; sempre haveria um abismo que se formara sabe-se lá em que instante. Tão grande era o abismo, que faltava sempre um pedaço dentro dela. E tão escuro era, tantas coisas cabiam lá dentro… Tantas coisas caídas lá dentro… Quantas ela conhecia? Quantas ainda precisaria conhecer? Quantas permaneceriam ocultas para sempre?
Se sua história já se fazia imensa e cheia de detalhes, maior ainda era essa janela recém-descoberta, essa janela que dava para a escuridão.
Pouco a pouco, as coisas se revelavam; deixavam a escuridão desesperadamente, como pequenas porções de lava que precisam da superfície.
Susto: era isso que aqueles pequenos pedaços de matéria fervente lhe causavam. Alguns eram de extrema beleza; em outros, era inacreditável a falta de forma e o aspecto bruto. Lapidados; esses pedaços precisavam ser lapidados. Não à força, não pelas suas próprias mãos; o tempo: ela tinha a convicção de que o tempo, o sol, a chuva, os dias presentes e os futuros o fariam, porque era assim que devia ser, porque a natureza era maior e mais cuidadosa do que suas mãos.
Queria gritar, chamar: “Vem! Vem ver a explosão!”
Não. De repente, preferiu o silêncio. Preferiu ouvir sozinha a explosão. E decidiu que só chamaria, gritaria e levaria pela mão quando se acostumasse a olhar o espetáculo por aquela janela tão nova.
Não, não lhe satisfaziam as grandezas da lua, do planeta, do país, do universo. O mais importante, ela pensou, era conhecer o mistério do seu próprio abismo e revelá-lo com atenção e verdade.

Antes, ele era a torrente de lava capaz de fazê-la arder por inteiro; era o oásis que dava vida ao deserto das horas intermináveis.

Agora, é apenas um ponto de luz agonizante em meio ao fogo que ela produz; é uma gota em meio à imensidão de águas que correm, muito mais grandiosas, dela para lugares desconhecidos, de um jeito nunca antes imaginado.

Já não era sem tempo: finalmente, o agora lhe trazia a paz.

Uma Nova Visão

Seus olhos lhe pregam a mesma peça todos os dias. Você confia tanto neles, não é? Enquanto isso, eu rio deles. Não posso evitar, não posso ter outra reação.

Você quase me esmaga ao passar, mas eu resisto. Volto à forma original instantes depois de você me atravessar com os pés.

Você confia tanto em seus olhos, mas os meus podem ver além deles. É por essa confiança que você fala demais; fala do que vê, do pouco que sabe e do que sequer conhece.

Você pode não acreditar, talvez não seja capaz de ouvir, porque sua visão, ainda que distorcida e só sua, ofusca todos os sons, todos os toques, todos os odores e todos os sabores; você não se importa, mas seus olhos não lhe deixam ser livre.

Chegue mais perto.

Feche os olhos por um instante.

Inspire.

Fique em silêncio. Medo? Só por um instante, você se acostuma.

Escute, apenas escute. Sim, faz muito tempo que você não escuta, não repara, não sente. Faz muito tempo que você não é livre.

Agora olhe novamente. Não, não dessa forma displicente! Olhe calmamente, na quietude de quem aprende.

Consegue perceber? Não é só você que olha. Consegue perceber agora que também é alvo de olhares?

Para terminar, tenho um presente para você: pegue, esse espelho é seu. Por que o espanto? Essa imagem refletida é a sua, não a reconhece? Você não se vê tão grande como antes, não é mesmo? Em compensação, tudo ao seu redor está maior; não é curioso? E tudo tão diferente, tantos detalhes antes desconhecidos… Melhor jogar fora aquele baú onde você costumava guardar as imagens alheias; esses rostos novos, cheios de detalhes, não cabem mais nele. Talvez não caibam mais em lugar algum; só lhe resta expandir-se, para acolher dentro de si tudo o que trará esse novo olhar.

Feche os olhos, sinta, fique em silêncio e escute. Muito… Só assim poderá ver de fato.

Contraditória

Um dia, alguém me disse que, para parar de reclamar da vida, bastava fazer duas listas: uma com as coisas que trazem alegria e satisfação, outra com tudo o que é necessário mudar ou que traz tristeza. Segundo meu conselheiro, a lista com as coisas boas seria infinitamente maior do que aquela contendo as aflições, apesar de tudo.

Isso já faz alguns anos. Apenas hoje decidi tentar seguir o conselho. O que parecia simples transformou-se numa tarefa quase impossível. Começando a pensar nas diversas áreas desse labirinto a que chamamos vida, percebi que não são necessárias duas listas, mas muitas e muitas: gostos e desgostos na família, no trabalho, em mim, no mundo. É fato: absolutamente tudo tem dois lados.

Não fiz as várias listas que julguei imprescindíveis; por isso, não sei a quantidade de delícias e de agruras presentes em cada uma delas. Possivelmente, não fiz porque não fui capaz de fazer.

Descobri que não é uma questão de infelicidade, mas de instabilidade: o que me faz cantar hoje já foi motivo de choro num outro dia, do qual prefiro não me lembrar. É por isso que estimo instáveis como eu; é por isso que parei de questionar, de exigir; em vez disso, prefiro amar.