— (…) Há muito tempo, eu li em algum lugar, num livro de auto-ajuda eu acho, uma frase que dizia que amar é compartilhar a própria solidão, é bonito, não é?!
— É, Laura, é bonito, mas talvez você estivesse apenas…
Otávio pretendia continuar a frase, mas eu o interrompi:
— E então eu ficava pensando que talvez aquilo fosse uma espécie de amor. Você acha que eu poderia amar aquela pessoa desconhecida ao meu lado?
Otávio me olhou impaciente, irritado.
— É possível, porém seria uma idealização.
Uma idealização. Pronto, era sempre assim, sempre que eu queria dizer algo importante, algo que realmente importava, Otávio vinha com teorias, Otávio não queria ouvir a verdade, ele queria apenas o que ele queria.
— Por que uma idealização, que amor não é idealizado?
— É, o amor é muitas vezes uma idealização, mas existem formas de amor. O amor por uma pessoa de carne e osso, que existe com seus defeitos e qualidades, e o amor que você pode sentir pela humanidade, ou por um desconhecido no cinema.
— Só que é bem mais fácil amar um desconhecido no cinema do que amar a humanidade.
#
Trecho do livro “Toda Terça”, de Carola Saavedra, em que a paciente Laura e o analista Otávio conversam durante uma sessão.
Li esse livro há mais de um ano e desde sexta-feira essa última frase não sai da minha cabeça.
É mais fácil amar um estranho porque é um estranho; mas quando se faz parte de um quadro de incompreensão em que se passa da estranheza à hostilidade com alguém que nunca se viu antes, fica mais fácil amar a humanidade, daquele jeito abstrato.
Estou cansada de ver as pessoas brigarem por coisas tão pequenas, como uma vaga de estacionamento, de 3 reais a menos no bolso porque cobraram um frete que não deviam, ou porque alguém perdeu a vez na fila do supermercado. Numa sociedade em que se fala cada vez mais da falta de tempo e da correria do dia-a-dia, parece haver gente demais com tempo de sobra a perder.
Talvez, como a Laura, eu esteja idealizando. Quer saber? Eu prefiro idealizar; prefiro cultivar minha “santa ingenuidade” a endurecer, a me tornar mais uma estátua de concreto. Já endureci o bastante; todos endurecem, de alguma forma; mas é bom parar enquanto a consciência ainda tiver salvação.
