outubro 2008

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— (…) Há muito tempo, eu li em algum lugar, num livro de auto-ajuda eu acho, uma frase que dizia que amar é compartilhar a própria so­lidão, é bonito, não é?!

— É, Laura, é bonito, mas talvez você estivesse ape­nas…

Otávio pretendia continuar a frase, mas eu o interrompi:

— E então eu ficava pensando que talvez aquilo fosse uma espécie de amor. Você acha que eu poderia amar aquela pessoa desconhecida ao meu lado?

Otávio me olhou impaciente, irritado.

— É possível, porém seria uma idealização.

Uma idealização. Pronto, era sempre assim, sempre que eu queria dizer algo importante, algo que realmente importava, Otávio vinha com teorias, Otávio não queria ouvir a verdade, ele queria apenas o que ele queria.

— Por que uma idealização, que amor não é idealizado?

— É, o amor é muitas vezes uma idealização, mas exis­tem formas de amor. O amor por uma pessoa de carne e osso, que existe com seus defeitos e qualidades, e o amor que você pode sentir pela humanidade, ou por um desconhecido no cinema.

— Só que é bem mais fácil amar um desconhecido no cinema do que amar a humanidade.

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Trecho do livro “Toda Terça”, de Carola Saavedra, em que a paciente Laura e o analista Otávio conversam durante uma sessão.

Li esse livro há mais de um ano e desde sexta-feira essa última frase não sai da minha cabeça.

É mais fácil amar um estranho porque é um estranho; mas quando se faz parte de um quadro de incompreensão em que se passa da estranheza à hostilidade com alguém que nunca se viu antes, fica mais fácil amar a humanidade, daquele jeito abstrato.

Estou cansada de ver as pessoas brigarem por coisas tão pequenas, como uma vaga de estacionamento, de 3 reais a menos no bolso porque cobraram um frete que não deviam, ou porque alguém perdeu a vez na fila do supermercado. Numa sociedade em que se fala cada vez mais da falta de tempo e da correria do dia-a-dia, parece haver gente demais com tempo de sobra a perder.

Talvez, como a Laura, eu esteja idealizando. Quer saber? Eu prefiro idealizar; prefiro cultivar minha “santa ingenuidade” a endurecer, a me tornar mais uma estátua de concreto. Já endureci o bastante; todos endurecem, de alguma forma; mas é bom parar enquanto a consciência ainda tiver salvação.

Sagrado

Aprendeu, de uma hora para a outra, que insistir é bom, mas não resolve todos os problemas.

Abriu os caminhos, deixou tudo à mostra; não impediu, nem disse a ninguém o que fazer.

Ainda que tivesse de andar só, deixou que optassem.

Porque haveria um momento inevitável em que a escolha seria sua.

E escolher, estava claro, era sagrado.

Uma Questão de Respeito

Você passa a vida com conceitos bem estabelecidos na mente; pensa que sabe o que é certo e o que é errado, o que se deve e o que não se deve fazer.

Basta um momento, porém, para que você entenda de fato o sentido real desses conceitos e perceba o que aprendeu.

O respeito é o princípio humano mais afrontado que existe. Há sutilezas que algumas pessoas não conseguem perceber ou não têm boa vontade para levar em conta na hora de se relacionar com outras.

Vejo coisas hoje que, sinceramente, me assustam, manifestações do mais completo e indiscutível desrespeito. O assunto é muito abrangente, mas gostaria de citar alguns exemplos bem marcantes: a falta de respeito de um homem que, tendo uma família e uma mulher grávida, faz comentários supostamente elogiosos, mas de extremo mau gosto, sobre a colega de trabalho; a total falta de consideração de um homem que, mesmo se relacionando com uma mulher, não hesita em sair com outra, vangloriando-se de “administrar a situação”; a falta de caráter do homem que prejulga uma (até então) amiga, baseando-se sabe-se lá em quê e confundindo seus próprios sonhos e suas fantasias com a realidade, uma realidade da qual ele jamais participará.

É verdade, nem toda mulher é inocente. Algumas não se dão ao respeito; assim, não podem exigi-lo de volta. No entanto, não é justo que todas as mulheres sejam dignas do mesmo tratamento. Da mesma forma, não é justo que todos os homens sejam tidos como desprezíveis e incorretos. Confiar em estereótipos é uma maneira tacanha de levar a vida.

Pensar em respeito, sem dúvida, não é o mesmo que praticá-lo. Mas será que praticá-lo é tão difícil assim? Eu creio que não, mas há quem pareça não ter a mais vaga idéia do que isso significa.

Das Coisas Antigas

Passeando por alguns sites em que há muito tempo não navegava, encontrei um texto que escrevi há mais de dois anos.

Não me lembrava dele, muito menos do seu porquê, da história que inspirou outra história. Hoje, creio, eu não o escreveria; ou o escreveria de outra forma.

De qualquer maneira, resolvi compartilhar este texto de que não gosto, mas que achei curioso. Para ler, clique aqui.

Ainda bem que a gente evolui; na vida e na escrita.

O Coldplay lançou um dos álbuns mais bonitos deste ano: Viva la Vida or Death and All His Friends. Quando ouvi Violet Hill, a faixa que a banda disponibilizou para download em seu site oficial há alguns meses, não me encantei; achei que seria mais um álbum tão insosso como foi X & Y, de 2005 (e é claro que há exceções, como a deliciosa The Hardest Part).

Quando Viva la Vida começou a tocar nas rádios, também não vi muita graça; para falar a verdade, não prestei muita atenção nela. Fiquei mais atenta quando minha mãe (sim, minha mãe, acostumada a ouvir em casa bandas como Radiohead e Keane) me perguntou quem cantava aquela música linda que ela havia ouvido no rádio. Respondi à pergunta e passei a ouvir Viva la Vida com mais carinho. Não demorou muito para eu ter vontade de ouvir o cd todo. Não me arrependi, pois a banda conseguiu fazer mesmo um trabalho mais “colorido”, como era sua intenção, inspirando-se nas tão famosas “cores de Frida Kahlo”.

Viva la Vida or Death and All His Friends é repleto de arranjos bem construídos, que o enchem de delicadeza sem fazer dele um disco banal. Equilibra muito bem a noção de vida e morte, descrita já no título. É bom para ouvir na primavera, essa estação tão indecisa, que ora trás dias agradáveis e leves, ora trás, como lembrança do inverno que passou, um vento frio e triste, capaz de ainda arrepiar.