abril 2009

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Conselho

“Não faça a sua felicidade depender do que não depende de você”.

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Parte do comentário da Valéria Martins a respeito do post abaixo; frase para ficar na cabeceira.

 

Alívio

Hoje eu seria capaz de abraçar você com a mesma intensidade com que o repeli da minha vida. Ainda que eu tenha um medo atroz de tocar você, queimar minhas mãos e meu corpo inteiro, saudade não é algo que se deixa de sentir assim, de uma vez.

 

Para mim era insuportável conviver com a distância que você educadamente estabelecia entre nós; nunca deixou que eu me aproximasse muito, eu entrevia somente o que você queria mostrar. Eu era uma pequena parte, uma peça periférica, o detalhe para o qual você virava as costas quando bem entendia. Eu dissimulava, negando quando queria afirmar, escondendo quando queria revelar

 

Eu lutava por um espaço que não era meu; Almejava o papel de protagonista de uma história na qual não havia lugar para mim. O lugar que eu mais desejava era de outra pessoa: alguém incomum, sublime, doce.

 

Construí uma parede entre nós, isolei-me e esqueci você do outro lado, mesmo não sabendo qual a sua consciência desses meus atos… Egoístas? Não, eu não diria isso; diria que eles são apenas mecanismos de autopreservação.

 

Embora tivesse muitas vezes a impressão de que você sabia, sempre soube de tudo, entendia que eu sentia errado, bem mais do que cabia a uma amizade politicamente correta, eu tinha (e ainda tenho) medo de ultrapassar a fronteira e romper a linha tão frágil que nos une. Na verdade, eu gostaria que você tivesse detectado o que acontecia dentro de mim; e que me dissesse, em alto e bom som: “Eu sei!” Sem explicações, sem mais palavras para clarear o que já é luminoso. Nada me deixaria mais feliz; aliviaria minha bagagem, permitiria que eu deixasse para trás o peso que carrego sozinha, o fardo das coisas belas que não são e nunca serão. Assim, quem sabe, eu poderei ir em frente, seguir por outras trilhas e demolir essa barreira, esse obstáculo que me dá, ao mesmo tempo, tanta segurança e tanto desalento.

O vídeo é uma das cenas mais bonitas de “Cidade dos Sonhos”, filme do david Lynch. Assisti a uns cinco anos e, apesar de não ter gostado do filme, ele me marcou. Ontem, não sei por qual motivo, comecei a cantarolar a música, interpretada pela Rebekah del Rio. Talvez seja apenas uma lembrança, talvez não; como saber?

Pequenos Milagres

Eu gosto de encontros. Não de encontros marcados, mas de encontros espontâneos. Aqueles que acontecem sem que a gente perceba, como se não fosse um encontro, como se não fosse nada. Aconteceu ontem, hoje nem nos lembramos mais; só amanhã entenderemos que não poderia ter sido melhor.

Os melhores amigos não são aqueles que se conhecem com a intenção de serem amigos; são os que se cruzam sem querer, quase por acidente; pode ser na calçada, na sala de aula, entre as letras de um monitor. Os amores mais intensos são aqueles que nascem não se sabe de que semente, mas crescem tão rápido que temos a impressão de ter vivido com eles desde sempre.

Há quem goste de ordenar as coisas, de "facilitar" os relacionamentos; não pode ver duas almas caminhando sozinhas; na primeira oportunidade, resolve, com as melhores intenções do mundo (e isso é indiscutível), uni-las, porque, afinal de contas, os dois são tão parecidos! Fariam bem um para o outro.

Pessoalmente, desconfio desse tipo de iniciativa; não que aquele que une esteja agindo de má fé; como eu já disse, as boas intenções são indiscutíveis. O problema é que um "encontro marcado" assim quebra todo o encanto, tira todo o magnetismo de uma situação que, se vivida com naturalidade, poderia dar frutos bons e legítimos. É claro que há histórias e histórias, mas as melhores que presenciei e vivi aconteceram com o passar dos dias.

Gosto de apostar nas improbabilidades, elas são meu vício. Se cada história pode trazer dor, sofrimento e lágrimas, por que não pode vir embrulhada para presente, até com uma felicidade inédita?

Esse otimismo parece até infantil, coisa de livro de autoajuda. Embora eu não goste de autoajuda e já tenha passado da idade de brincar de boneca, o otimismo me persegue, me ajuda a andar quando penso nem ter mais pernas. Não quero dar aqui dicas de motivação, nem fazer uma coleção de tolices empilhadas num post de blogue. Quero apenas registrar que não se pode parar. Porque nunca se sabe qual a surpresa que os dias reservam e o que há escondido de mais bonito em todas as pessoas, todos os amigos e amores a serem encontrados por aí.

Era fiel ao corpo dela, só isso. Para Martin, o corpo de Solly era como uma cidadezinha que, com o tempo, havia se espalhado e crescido até se transformar em um centro agitado, atravessado por novas ruas e empreendimentos imobiliários modernos, alguns deles bem feios. Havia mudado, mas era onde ele morava.

Trecho de “Arlington Park”, de Rachel Cusk.

Esse fragmento, em meio a um texto que relata o cotidiano de cinco mulheres entediadas e frustradas com suas vidas, é uma demonstração de amor. Não daquele amor que explode, que transborda os ambientes; não daquele amor que estamos acostumados a ver nos filmes e a ler em alguns livros. Mas de um amor tranquilo, que resiste e que não faz alarde para ser visto; ele simplesmente existe.