março 2010

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Muitos anos antes de sua morte, um notável rabino, Abraham Joshua Heschel, sofreu um ataque do coração quase fatal. Seu melhor amigo estava ao lado de seu leito. Heschel estava tão fraco que só conseguiu sussurrar:

Sam, sou grato pela minha vida, por todos os momentos que vivi. Estou pronto para partir. Vi tantos milagres na minha vida.

O velho rabino ficou esgotado pelo seu esforço em falar. Depois de uma longa pausa ele disse:

Sam, nunca na minha vida pedi a Deus sucesso, sabedoria, poder ou fama. Pedi assombro, e ele me concedeu.

Brennan Manning, em O Evangelho Maltrapilho

Esta também tem sido minha oração constante: que me seja concedido o assombro diante da vida. Não falo do assombro que atemoriza, do medo paralisante; falo do assombro que emociona, manifesto no sorriso diante do sol que esquenta o dia ou da chuva que o refresca; na surpresa em descobrir, em meio ao asfalto, as flores perfumadas de que tanto gosto; nas lágrimas de alegria que respondem a uma declaração de amor sincera; na beleza de me ver diante de duas pessoas que se amam; na simplicidade da conversa capaz de construir laços de amizade para o resto da vida; na habilidade de encontrar sentido nas palavras escritas por outra pessoa; no conforto que trazem as notas harmonizadas de uma música; na disposição alegre em ajudar quem precisa de mim; na certeza de que o mundo não é feito só de tristezas, quando as pessoas se auxiliam e se respeitam.

Pois sem o assombro eu me torno insensível; não consigo perceber a delicadeza em meio às calamidades, minhas e do mundo; não posso sentir em cada gesto humano a presença do Deus que não vejo, mas em quem creio, pelo simples fato de não acreditar que o universo se encerra na finitude dos pensamentos dos homens.

Uma vida sem assombro é uma vida que não sabe celebrar. Por isso, ainda que nem tudo seja como eu quero (e quase nada é), continuo pedindo – a Deus e à minha própria alma – que me seja concedida a graça do assombro de cada dia.