cotidiano

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“Mãe, fico irritada comigo mesma. Eu poderia estar fazendo tantas outras coisas hoje, mas estou aqui, grudada num livro.”

Essa fala foi real, proferi essas palavras ontem, num diálogo com minha mãe. Ela, que não se importa com meus hábitos literários, tem de ouvir considerações da filha que não se conforma com as próprias inclinações.

Confesso que algumas coisas que faço me incomodam. Essa “mania de ler” é uma delas. Dia de chuva? Oba, ótima desculpa para esquecer o mundo e me deixar levar. Dia seguinte, domingo de sol: um passeio, um lugar diferente, boa conversa com amigos; ótimo, ninguém é uma ilha; mas não neste dia. Uma voz de dentro me chama: “Vá ver o mundo, menina, mostre a ele quem você é”. Fecho-me em concha, porém; hoje prefiro intrometer-me em outra vida, conhecer seu destino já traçado pelas letras, já que do meu não posso saber.

Muitos anos antes de sua morte, um notável rabino, Abraham Joshua Heschel, sofreu um ataque do coração quase fatal. Seu melhor amigo estava ao lado de seu leito. Heschel estava tão fraco que só conseguiu sussurrar:

Sam, sou grato pela minha vida, por todos os momentos que vivi. Estou pronto para partir. Vi tantos milagres na minha vida.

O velho rabino ficou esgotado pelo seu esforço em falar. Depois de uma longa pausa ele disse:

Sam, nunca na minha vida pedi a Deus sucesso, sabedoria, poder ou fama. Pedi assombro, e ele me concedeu.

Brennan Manning, em O Evangelho Maltrapilho

Esta também tem sido minha oração constante: que me seja concedido o assombro diante da vida. Não falo do assombro que atemoriza, do medo paralisante; falo do assombro que emociona, manifesto no sorriso diante do sol que esquenta o dia ou da chuva que o refresca; na surpresa em descobrir, em meio ao asfalto, as flores perfumadas de que tanto gosto; nas lágrimas de alegria que respondem a uma declaração de amor sincera; na beleza de me ver diante de duas pessoas que se amam; na simplicidade da conversa capaz de construir laços de amizade para o resto da vida; na habilidade de encontrar sentido nas palavras escritas por outra pessoa; no conforto que trazem as notas harmonizadas de uma música; na disposição alegre em ajudar quem precisa de mim; na certeza de que o mundo não é feito só de tristezas, quando as pessoas se auxiliam e se respeitam.

Pois sem o assombro eu me torno insensível; não consigo perceber a delicadeza em meio às calamidades, minhas e do mundo; não posso sentir em cada gesto humano a presença do Deus que não vejo, mas em quem creio, pelo simples fato de não acreditar que o universo se encerra na finitude dos pensamentos dos homens.

Uma vida sem assombro é uma vida que não sabe celebrar. Por isso, ainda que nem tudo seja como eu quero (e quase nada é), continuo pedindo – a Deus e à minha própria alma – que me seja concedida a graça do assombro de cada dia.

A volta

Eu vou, eu desisto, mas volto e insisto. Foi exatamente o que fiz ontem, com este blog.

Há algum tempo, algumas pessoas próximas e queridas têm me cobrado: “Quando vai voltar a escrever? Por que não atualiza mais o blog?” Até um pen drive eu ganhei, exclusivamente para guardar meus textos; sim, presente com segundas intenções, mas que vai ser usado somente para isso mesmo.

Pensei nas possibilidades. Fui até o blog antigo e reli boa parte do que foi publicado lá, de 2006 até 2009. De algumas coisas me orgulhei, de outras me envergonhei. Mas o mais importante foi perceber que aquela coleção de pensamentos significa mais para mim do que eu poderia imaginar. Não são só palavras, mas existe, por trás de cada texto, uma história, por mais distante que ela possa estar da minha atual realidade.

Não precisei pensar muito para tomar a decisão: peguei todos os textos e trouxe-os para cá. Importei todo o meu antigo blog para este espaço. É claro que veio a tentação de cortar as passagens mais irrelevantes e revisar tudo, mas, como diz um querido amigo e grande incentivador, parafraseando Arnaldo Antunes, antes de existir o revisor, existia o escritor. Além do mais, como eu já disse, e desculpem-me se estou sendo repetitiva, tudo faz parte da minha história.

Descobri também que não consigo escrever sobre um único tema. A ideia de fazer um blog segmentado sobre literatura era boa, mas minha escrita não serve para mergulhar em um pequeno mundo e dele retirar seu substrato. Não que a literatura seja um pequeno mundo, muito pelo contrário. Todavia, o cotidiano tem coisas boas demais para serem exploradas, dentro e fora dos livros, e quero abraçar e compartilhar todas as que puder.

Por isso, a garota das palavras volta a tecer sua colcha de retalhos, pois aprendeu a importância de cada um.

O Diário

Sou apaixonada por diários; aqueles de papel, em que as meninas costumavam escrever antes da era dos blogues, mas nos quais algumas pessoas, ainda hoje, registram seus pensamentos. Mais do que os livrinhos decorados ou não, o que me encanta fica dentro deles: pensamentos, segredos, escritas de angústia e libertação.

Já fiz várias tentativas de escrever um diário com regularidade, mas nunca consegui; é claro que eu acho muito mais charmoso escrever à mão, mas meu senso prático não me abandona. Acontece que eu não gosto de acumular coisas; meu espaço precisa sempre ser renovado; em vez de acumular, faço meus objetos circularem. A ideia de colecionar livros com memórias não me atrai.

Embora eu ache meio tarde começar um diário aos 25 anos, sem registro da vida até aqui, tenho tido alguns impulsos irresistíveis. Assim, como se não tivesse mais nada para me preocupar, como dois blogues nos quais raramente dei as caras durante este mês, decidi iniciar um diário; eletrônico, é claro! Na prática, agora, serão três blogues; mas o último, ao qual me refiro agora, é privado; vai conter coisas que só dizem respeito a mim e agora a ele. Será meu ponto de fuga, minha terapia, meu confessionário, minha beira do precipício.

E por que você, leitor, deveria se interessar por isso? Porque hoje, se eu tivesse de lhe dar um conselho, que aliás você não pediu, eu diria: faça um diário e coloque nele aquela parte escondida da sua alma, aquela parte tímida, impublicável, cheia de vida, certezas e perguntas. Minha pouca experiência me diz que isso quebra correntes. Além disso, quando você quiser se lembrar das vezes em que foi ridículo ou genial, terá ajuda certa, sem a confusão da memória.

Há pessoas que só acreditam que algo é verdadeiro quando não há simplicidade. Para essas pessoas, um fato não pode ser verdadeiro se for simples demais. Por isso, torna-se difícil acreditar nas palavras de alguém que não tem segundas intenções, que não se aproveita de subterfúgios para se relacionar.

A cada dia, estou mais convencida de que o julgamento realmente não é algo bom de se fazer. Não porque minha natureza não goste de julgar; a minha, como a da maioria dos seres humanos, gosta, e muito. O problema começa quando somos obrigados a lidar com o outro lado da moeda. Quando alguém coloca suas ações e intenções dentro de uma caixinha e as molda exatamente como gostaria que elas fossem, destrói todo um mar de coisas que não conhece; ignora seu jeito de levar a vida, suas observações, distrações, escolhas e preferências.

É difícil aceitar que há pontos de vista diferentes; é difícil compreender que o outro não entende as coisas como você ou a maioria entende, ou simplesmente que o outro não percebe certas coisas.

Suponha que você está diante de uma discussão, da qual participam duas pessoas, A e B, e que é presenciada por um grupo relativamente grande. Em determinado momento, A, para se defender da acusação de B, referente a algo que A havia dito, pergunta a você: “Você me ouviu dizer isso?” Ao que você responde “Não, eu não ouvi”. Você não faz isso para defender A, faz somente porque de fato não ouviu nada; estava prestando atenção a algo mais, distante da discussão e do grupo; você simplesmente se “desligou” daquela atmosfera desagradável. As pessoas ao redor olham com espanto para você, como se dissessem “Como você não ouviu? está tão claro!”, mas você não pode fazer nada; a verdade é a verdade e pronto. Todos estão cientes do que foi dito e do que não foi, mais cientes do que você. Porém, ninguém tem coragem suficiente para dizer uma palavra; todos só têm coragem de te julgar sem palavras, de duvidar da única verdade que você consegue dizer. Cada qual o coloca em sua caixinha de modelar, tentando igualar suas atitudes àquelas que eles talvez tivessem, estabelecendo seus próprios parâmetros.

Se você opta por não julgar, isso não significa que acredita em tudo o que lhe disserem; significa somente que você sabe que, fora de você, há mil pontos de vista e nuances que fogem ao seu controle e conhecimento.

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