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Aniversário

O aniversário é uma data mágica. Talvez seja o dia em que mais se colham os frutos plantados durante o ano, durante a vida inteira.

Por mais desencanto que haja, é no dia do seu aniversário que você descobre que as pessoas têm mais a lhe oferecer do que você imagina. Não falo de presentes, falo de afeto; um objeto, para ser presente, precisa carregar em si o afeto; este, porém, é suficiente se com ele não vier junto um objeto. Porque não existe bem material que substitua o significado de uma lembrança.

Amor é tudo que se pode sentir depois de mais um aniversário.

Incomoda-me um pouco a euforia coletiva que tomou conta do mundo, sobretudo dos EUA, em torno da eleição de Barack Obama, acontecimento importante que ganha luzes sem conta com a cobertura da imprensa.

Pode-se esperar quase tudo de um ser humano: integridade, respeito, compromisso. Mas salvação, certamente, de modo algum.

A Falta

O cotidiano rouba muitas coisas. A pior delas é a familiaridade com o que antes parecia tão simples, quase imperceptível de tão simples.

Os mesmos acontecimentos vão preenchendo os dias, vão enchendo de nada as horas tão sagradas de cada volta da Terra sobre si mesma.

Vem o tic tac do relógio perturbar o silêncio escasso.

Vem o movimento, que exige de nós o fôlego, a resposta, o mecanismo.

Vai-se o pensamento. Perdêmo-lo de vista, não o encontramos mais. Vai um pouco de nós com ele. Vão-se também as palavras; aquelas que nos transbordavam, que nos comunicavam, que nos traduziam e davam forma ao mundo.

Subitamente, é fácil perceber: com tudo o que some, some também aquilo que nos alivia: a intimidade com as palavras.

Contraditória

Um dia, alguém me disse que, para parar de reclamar da vida, bastava fazer duas listas: uma com as coisas que trazem alegria e satisfação, outra com tudo o que é necessário mudar ou que traz tristeza. Segundo meu conselheiro, a lista com as coisas boas seria infinitamente maior do que aquela contendo as aflições, apesar de tudo.

Isso já faz alguns anos. Apenas hoje decidi tentar seguir o conselho. O que parecia simples transformou-se numa tarefa quase impossível. Começando a pensar nas diversas áreas desse labirinto a que chamamos vida, percebi que não são necessárias duas listas, mas muitas e muitas: gostos e desgostos na família, no trabalho, em mim, no mundo. É fato: absolutamente tudo tem dois lados.

Não fiz as várias listas que julguei imprescindíveis; por isso, não sei a quantidade de delícias e de agruras presentes em cada uma delas. Possivelmente, não fiz porque não fui capaz de fazer.

Descobri que não é uma questão de infelicidade, mas de instabilidade: o que me faz cantar hoje já foi motivo de choro num outro dia, do qual prefiro não me lembrar. É por isso que estimo instáveis como eu; é por isso que parei de questionar, de exigir; em vez disso, prefiro amar.

Sorrir sem ter por quê.

Amar sem o ser.

Perceber sem ser percebido.

Criar para deixar ir.

Escutar e silenciar.

Seguir com o coração aos pulos.

Andar, mesmo quando todo o seu ser pede descanso.

Crer sem ver.

Cativar e aceitar.

Deixar-se ser cativado.

Sentir dor e chorar.

Mudar de rota de vez em quando.

Espalhar boas e sinceras palavras.

Esquecer as ruins.

E, depois de tudo isso, sentir o dia passar. Em paz.

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