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Aniversário

O aniversário é uma data mágica. Talvez seja o dia em que mais se colham os frutos plantados durante o ano, durante a vida inteira.

Por mais desencanto que haja, é no dia do seu aniversário que você descobre que as pessoas têm mais a lhe oferecer do que você imagina. Não falo de presentes, falo de afeto; um objeto, para ser presente, precisa carregar em si o afeto; este, porém, é suficiente se com ele não vier junto um objeto. Porque não existe bem material que substitua o significado de uma lembrança.

Amor é tudo que se pode sentir depois de mais um aniversário.

Diz-se que os gatos são egoístas, quando, na realidade, são simplesmente espertos. Não vêm a você se podem fazer com que você vá a eles. Sua força reside em sua aparente indiferença. Preferem deixar-se amar a arriscar seus sentimentos deixando-os evidentes. Como bons taoístas que são, fazem sem fazer e governam sem governar. Limitam-se a manter sua dignidade e a se conduzir de acordo com seus caprichos. Não pedem carinho e por isso o obtêm sem pedi-lo. Os cães têm donos; os gatos, criados.

 

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Trecho de “Amor em Minúscula”, do espanhol Francesc Mirales, um dos livros mais graciosos que li este ano. Não é um livro sobre gatos, mas um gato, nesse livro, é personagem fundamental. Ele entra na vida de um homem sem pedir licença e vai transformando-a gradativa e surpreendentemente.

Difícil escolher um trecho para reproduzir aqui; o livro é cheio de frases de que gostei muito, além de muitas referências musicais, literárias e cinematográficas, sem com tudo isso tornar-se chato.

Escolhi o fragmento acima porque, apesar de não ter um gato, pela observação, concordo com o narrador. Há tanta gente precisando da dignidade com a qual os gatos já nascem…

Os melhores carinhos são aqueles que ganhamos sem pedir; a melhor vida que podemos levar é aquela que conquistamos com a força e o fôlego que vêm de nós, e não à custa de alguém. Não há nada mais belo do que conduzir-se com independência, mas sem prepotência, sabendo a hora certa de ir a alguém, não para poupar esforços, mas para completar o que de fato nos falta.

Estou certa de que todo mmundo deveria ter alguém em quem pensa com carinho; alguém que pode desaparecer das vistas, mas nunca desaparecerá de verdade; alguémde quem não é preciso esconder sua face mais sombria e que te diz que, mesmo diante do seu lado mais feio, você continua sendo o que sempre foi, afinal de contas, ninguém é totalmente bom ou totalmente ruim; alguém acostumado a todas as suas limitações e que lida com elas melhor do que você mesmo. Porque quando faltar o amor, a compreensão e sobrar a desesperança, seu amigo, aquela parte sua que habita um outro corpo, estará à porta, esperando você bater.

Dias Plenos

Já viveu um dia pleno? Um dos eventos mais difíceis, na minha opinião, de acontecer na vida. Existem dias bons, mas plenos, plenos mesmo, são difíceis de encontrar e de viver.

Mas o que é um dia pleno? É verdade que isso dá pano pra manga, como dizem; porque as opiniões podem ser muito distintas. O que eu chamo de dias plenos (posso falar só de mim) são dias em que todos os sentidos se manifestam por conta de alguma coisa ou alguém. Algo de tão bom, mas tão bom mesmo, acontece e é capaz de mudar a perspectiva de todo o resto; e essa coisa boa pode se materializar de várias formas, desde um “oi” lindo e inesperado até um bilhete premiado; e eu estou falando de extremos, é claro.

Um dia pleno é um dia em que toda cor se deixa ser vista; em que todo aroma é doce, fresco; em que todo som é suave: os de fora e os de dentro da alma e no fim, tudo se transforma em música. Um dia pleno é um dia em que toda palavra é uma esmeralda, que vem aprimorar a obra de arte que cada um constrói ao longo da vida; é um dia em que todo gosto se torna inesquecível e vai além do momento e em que toda testura está em harmonia com as mãos: agradável e perfeita.

Os dias plenos, dias repletos de sentidos e de sensibilidade, só existem por causa de tantos outros vazios e sem graça. Os dias plenos são tão sublimes que permitem sentir a beleza até onde não há nenhuma; fazem a gente voar com gaiola e tudo, simplesmente porque trazem essa capacidade; fazem da gaiola um detalhe quase imperceptível, insignificante. Afinal de contas, voar e sentir é mais fácil do que manter-se na gaiola das razões permanentes. Os dias plenos dão a alegria mais infantil, ridícula e indispensável que alguém pode experimentar.

O amor tem cheiro? O que te lembra o amor?

Dia desses, eu estava navegando no orkut e encontrei uma comunidade em que se discutia o amor e as impressões que as pessoas têm sobre ele. Havia um tópico cujo título era: “o amor tem cheiro?”. Imediatamente, comecei a pensar sobre o que o amor significava para mim. O que me lembrava o amor? Foi aí que me lembrei daquela flor de que gosto tanto: a dama-da-noite. O perfume dessa flor é tão agradável quanto marcante. Sempre que passo por algum lugar e o sinto, tenho a impressão de que o mundo não é tão feio; tenho vontade de dizer para os outros “sinta isso! Não é o melhor cheiro do mundo?”, mas geralmente as pessoas deixam passar despercebido o que para mim é um símbolo de tudo o que há de bom; dá uma vontade danada de ser feliz! Desperta saudade, uma saudade imensa de algo que ainda não vivi; faz vislumbrar o futuro, valorizar as pequenas alegrias do presente e sorrir para o que de bom deixou o passado.

Sempre digo aos outros que não gosto de receber flores. Acho um desperdício buquês de flores que em breve murcharão e morrerão, enquanto poderiam estar vivendo livres e crescendo lindamente em qualquer jardim. Por isso, brinco dizendo que, se alguém um dia quiser me dar flores, que me dê um jardim. E agora, complemento: que seja um jardim cheio de damas-da-noite; que seja um lugar em celebração ao amor.

E para você, de que tem cheiro o amor?

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