Há pessoas que só acreditam que algo é verdadeiro quando não há simplicidade. Para essas pessoas, um fato não pode ser verdadeiro se for simples demais. Por isso, torna-se difícil acreditar nas palavras de alguém que não tem segundas intenções, que não se aproveita de subterfúgios para se relacionar.
A cada dia, estou mais convencida de que o julgamento realmente não é algo bom de se fazer. Não porque minha natureza não goste de julgar; a minha, como a da maioria dos seres humanos, gosta, e muito. O problema começa quando somos obrigados a lidar com o outro lado da moeda. Quando alguém coloca suas ações e intenções dentro de uma caixinha e as molda exatamente como gostaria que elas fossem, destrói todo um mar de coisas que não conhece; ignora seu jeito de levar a vida, suas observações, distrações, escolhas e preferências.
É difícil aceitar que há pontos de vista diferentes; é difícil compreender que o outro não entende as coisas como você ou a maioria entende, ou simplesmente que o outro não percebe certas coisas.
Suponha que você está diante de uma discussão, da qual participam duas pessoas, A e B, e que é presenciada por um grupo relativamente grande. Em determinado momento, A, para se defender da acusação de B, referente a algo que A havia dito, pergunta a você: “Você me ouviu dizer isso?” Ao que você responde “Não, eu não ouvi”. Você não faz isso para defender A, faz somente porque de fato não ouviu nada; estava prestando atenção a algo mais, distante da discussão e do grupo; você simplesmente se “desligou” daquela atmosfera desagradável. As pessoas ao redor olham com espanto para você, como se dissessem “Como você não ouviu? está tão claro!”, mas você não pode fazer nada; a verdade é a verdade e pronto. Todos estão cientes do que foi dito e do que não foi, mais cientes do que você. Porém, ninguém tem coragem suficiente para dizer uma palavra; todos só têm coragem de te julgar sem palavras, de duvidar da única verdade que você consegue dizer. Cada qual o coloca em sua caixinha de modelar, tentando igualar suas atitudes àquelas que eles talvez tivessem, estabelecendo seus próprios parâmetros.
Se você opta por não julgar, isso não significa que acredita em tudo o que lhe disserem; significa somente que você sabe que, fora de você, há mil pontos de vista e nuances que fogem ao seu controle e conhecimento.
