gritos

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Há pessoas que só acreditam que algo é verdadeiro quando não há simplicidade. Para essas pessoas, um fato não pode ser verdadeiro se for simples demais. Por isso, torna-se difícil acreditar nas palavras de alguém que não tem segundas intenções, que não se aproveita de subterfúgios para se relacionar.

A cada dia, estou mais convencida de que o julgamento realmente não é algo bom de se fazer. Não porque minha natureza não goste de julgar; a minha, como a da maioria dos seres humanos, gosta, e muito. O problema começa quando somos obrigados a lidar com o outro lado da moeda. Quando alguém coloca suas ações e intenções dentro de uma caixinha e as molda exatamente como gostaria que elas fossem, destrói todo um mar de coisas que não conhece; ignora seu jeito de levar a vida, suas observações, distrações, escolhas e preferências.

É difícil aceitar que há pontos de vista diferentes; é difícil compreender que o outro não entende as coisas como você ou a maioria entende, ou simplesmente que o outro não percebe certas coisas.

Suponha que você está diante de uma discussão, da qual participam duas pessoas, A e B, e que é presenciada por um grupo relativamente grande. Em determinado momento, A, para se defender da acusação de B, referente a algo que A havia dito, pergunta a você: “Você me ouviu dizer isso?” Ao que você responde “Não, eu não ouvi”. Você não faz isso para defender A, faz somente porque de fato não ouviu nada; estava prestando atenção a algo mais, distante da discussão e do grupo; você simplesmente se “desligou” daquela atmosfera desagradável. As pessoas ao redor olham com espanto para você, como se dissessem “Como você não ouviu? está tão claro!”, mas você não pode fazer nada; a verdade é a verdade e pronto. Todos estão cientes do que foi dito e do que não foi, mais cientes do que você. Porém, ninguém tem coragem suficiente para dizer uma palavra; todos só têm coragem de te julgar sem palavras, de duvidar da única verdade que você consegue dizer. Cada qual o coloca em sua caixinha de modelar, tentando igualar suas atitudes àquelas que eles talvez tivessem, estabelecendo seus próprios parâmetros.

Se você opta por não julgar, isso não significa que acredita em tudo o que lhe disserem; significa somente que você sabe que, fora de você, há mil pontos de vista e nuances que fogem ao seu controle e conhecimento.

— (…) Há muito tempo, eu li em algum lugar, num livro de auto-ajuda eu acho, uma frase que dizia que amar é compartilhar a própria so­lidão, é bonito, não é?!

— É, Laura, é bonito, mas talvez você estivesse ape­nas…

Otávio pretendia continuar a frase, mas eu o interrompi:

— E então eu ficava pensando que talvez aquilo fosse uma espécie de amor. Você acha que eu poderia amar aquela pessoa desconhecida ao meu lado?

Otávio me olhou impaciente, irritado.

— É possível, porém seria uma idealização.

Uma idealização. Pronto, era sempre assim, sempre que eu queria dizer algo importante, algo que realmente importava, Otávio vinha com teorias, Otávio não queria ouvir a verdade, ele queria apenas o que ele queria.

— Por que uma idealização, que amor não é idealizado?

— É, o amor é muitas vezes uma idealização, mas exis­tem formas de amor. O amor por uma pessoa de carne e osso, que existe com seus defeitos e qualidades, e o amor que você pode sentir pela humanidade, ou por um desconhecido no cinema.

— Só que é bem mais fácil amar um desconhecido no cinema do que amar a humanidade.

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Trecho do livro “Toda Terça”, de Carola Saavedra, em que a paciente Laura e o analista Otávio conversam durante uma sessão.

Li esse livro há mais de um ano e desde sexta-feira essa última frase não sai da minha cabeça.

É mais fácil amar um estranho porque é um estranho; mas quando se faz parte de um quadro de incompreensão em que se passa da estranheza à hostilidade com alguém que nunca se viu antes, fica mais fácil amar a humanidade, daquele jeito abstrato.

Estou cansada de ver as pessoas brigarem por coisas tão pequenas, como uma vaga de estacionamento, de 3 reais a menos no bolso porque cobraram um frete que não deviam, ou porque alguém perdeu a vez na fila do supermercado. Numa sociedade em que se fala cada vez mais da falta de tempo e da correria do dia-a-dia, parece haver gente demais com tempo de sobra a perder.

Talvez, como a Laura, eu esteja idealizando. Quer saber? Eu prefiro idealizar; prefiro cultivar minha “santa ingenuidade” a endurecer, a me tornar mais uma estátua de concreto. Já endureci o bastante; todos endurecem, de alguma forma; mas é bom parar enquanto a consciência ainda tiver salvação.

Uma Questão de Respeito

Você passa a vida com conceitos bem estabelecidos na mente; pensa que sabe o que é certo e o que é errado, o que se deve e o que não se deve fazer.

Basta um momento, porém, para que você entenda de fato o sentido real desses conceitos e perceba o que aprendeu.

O respeito é o princípio humano mais afrontado que existe. Há sutilezas que algumas pessoas não conseguem perceber ou não têm boa vontade para levar em conta na hora de se relacionar com outras.

Vejo coisas hoje que, sinceramente, me assustam, manifestações do mais completo e indiscutível desrespeito. O assunto é muito abrangente, mas gostaria de citar alguns exemplos bem marcantes: a falta de respeito de um homem que, tendo uma família e uma mulher grávida, faz comentários supostamente elogiosos, mas de extremo mau gosto, sobre a colega de trabalho; a total falta de consideração de um homem que, mesmo se relacionando com uma mulher, não hesita em sair com outra, vangloriando-se de “administrar a situação”; a falta de caráter do homem que prejulga uma (até então) amiga, baseando-se sabe-se lá em quê e confundindo seus próprios sonhos e suas fantasias com a realidade, uma realidade da qual ele jamais participará.

É verdade, nem toda mulher é inocente. Algumas não se dão ao respeito; assim, não podem exigi-lo de volta. No entanto, não é justo que todas as mulheres sejam dignas do mesmo tratamento. Da mesma forma, não é justo que todos os homens sejam tidos como desprezíveis e incorretos. Confiar em estereótipos é uma maneira tacanha de levar a vida.

Pensar em respeito, sem dúvida, não é o mesmo que praticá-lo. Mas será que praticá-lo é tão difícil assim? Eu creio que não, mas há quem pareça não ter a mais vaga idéia do que isso significa.

Desrespeito

Quando eu penso que as coisas não podem piorar, elas pioram. Nada tem me assustado mais ultimamente que o egoísmo do ser humano. Hoje, navegando despretensiosamente por aí, li uma matéria dizendo que, nos meses de férias (janeiro e fevereiro) aumenta o abandono de animais nas cidades. Ouvir ou ler uma notícia assim me abala como poucas coisas. O que leva uma pessoa a simplesmente abandonar um outro ser vivo? Ser esse que foi escolhido para morar com uma família ou com uma só pessoa (não importa)? Mais que imaturidade, trata-se, como eu já disse, de puro egoísmo. Se você quer aproveitar suas férias longe de casa, dê conta das conseqüências que isso traz.

Algumas pessoas devem sentir um tipo de prazer mórbido ao maltratar outros seres, talvez por causa da fragilidade que eles demonstram. Então, acham-se no direito de decidir um destino, ainda que não o seu; contanto que seja o destino de alguém mais fraco (um cão, um gato, um pássaro), tudo bem, não há problema. Num momento de euforia ou faniquito de uma criança, compra-se um animal (um bem bonitinho, de preferência um filhote, por exemplo), leva-se esse animal para casa e depois nota-se que aquele bicho não correspondeu às expectativas; é muito desobediente, cresceu demais, e outros disparates. Aí, na calada da noite, o animal é jogado na rua; para piorar, tem gente que literalmente joga os bichinhos das janelas de carros em movimento! Eu já presenciei um ato desses. Não foi na calada da noite, mas isso não torna o ato menos cruel. Se eu tivesse o telefone de alguma sociedade protetora dos animais em mãos e tivesse condições de anotar a placa do veículo, talvez pudesse ter salvado a vida de quatro cachorrinhos e, por um milagre, punido o neurótico que dirigia o carro porque, segundo a Lei de Crimes Ambientais, maltratar animais, sejam eles domésticos ou silvestres, dá cadeia. Naquele dia, fiquei decepcionada comigo, com a minha impotência diante de uma injustiça.

Acredito que há muita gente que, apesar da idade, não sabe criar filhos. Diante de qualquer escândalo que uma criança dá em frente a uma loja de animais, os pais sedem aos apelos infantis e levam um “exemplar” para casa, sem avaliar suas próprias condições e sem saber que aquele cão, gato, ou o que quer que seja, vai interferir na rotina de todos e sentir toda sorte de emoção. Não seria bem mais fácil explicar à criança chiliquenta os motivos pelos quais ela não pode ter um animal de estimação? Sem sombra de dúvida, essa criança será um ser humano bem consciente no futuro.

Fico triste ao perceber que, a cada dia que passa, é só a vida de cada um que importa. A Amazônia tem sido detonada e ninguém liga; os animais têm sido maltratados e isso já virou rotina, é parte do cotidiano das cidades. Eu poderia citar inúmeros exemplos aqui, que vão muito além do desrespeito à natureza: executivos que só pensam no próprio dinheiro, mães que jogam bebês em latas de lixo como se estes não fossem parte delas mesmas e resultado de sua irresponsabilidade, atos de discriminação que vão desde os pequenos preconceitos nossos de cada dia até demonstrações explícitas de intolerância… Eu poderia fazer aqui uma lista enorme, mas isso só deixaria o texto imenso e o tornaria ainda mais deprimente. Você provavelmente fará sua própria lista e, se tiver um pingo de senso crítico, saberá que eu não estou exagerando. Se tiver sensibilidade, melhor para você e para os outros, sejam humanos ou não.

Vergonha Nacional

Nos últimos dias, temos presenciado verdadeiras demonstrações de falta de todo e qualquer tipo de princípio. Diante disso, sou obrigada a concordar e divulgar algo bem interessante que, com a a ajuda de um outro blogueiro, descobri. Apenas isso de nada adiantará, mas é um paliativo para nos vingarmos, pelo menos inicialmente.

Vá ao Google, digite “vergonha nacional” e clique no botão “estou com sorte”.

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