gritos

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Acho engraçada a superficialidade das pessoas de maneira geral. Muita gente se diz isenta de preconceitos, diz que não rotula ninguém. Essas pessoas não sabem, porém, o quanto é difícil ser isento e indiferente a algo, principalmente quando se trata de uma idéia há muito cristalizada na mente das pessoas.
sei que desse jeito parece complicado entender o que estou dizendo; a verdade é que estou profundamente triste, porque sou obrigada a conviver com gente que não se contenta em apenas referir-se aos outros pelos respectivos nomes, mas gosta de incrementar o tratamento com uma etiqueta nada gentil: o "viadinho", o "aleijado", entre outras qualificações que variam de acordo com a pessoa em questão. É como se os nomes não fossem suficientes; um paradoxo, ou melhor, uma inversão: um nome deveria caber numa mente. Essas mentes, entretanto, contentam-se em abrigar um rótulo; afinal de contas, esse é o único código que parecem entender. Isso me faz pensar e repensar o significado da palavra civilização. Ser isento de um preconceito, seja ele qual for, é muito difícil. Por isso é melhor ficar calado do que sair dizendo coisas com as quais não se pode arcar depois.

Tantos caminhos pela frente, tantas possibilidades… Tantas miragens que os olhos se sentem tentados a seguir…

Seria difícil, se não houvesse uma certeza, por mais que se pense por horas, dias, meses; uma certeza que indica o caminho real, aquele para onde os pés realmente querem ir.

Mas existe uma barreira, um muro bem alto impedindo a única passagem; um muro que não estava ali, que parece ter sido construído da noite para o dia apenas para tornar as coisas mais difíceis. É um muro todo escrito e desenhado, onde se lêem palavras numa língua desconhecida; que os olhos, ainda deslumbrados com as miragens que os pés ignoraram, são incapazes de ler. Os desenhos, da mesma forma, os olhos não conhecem; mas a alma, a dona da certeza que levou ao caminho, sabe muito bem que são imagens de um passado cheio de beleza e gotas de sorrisos; e que causa muita saudade; saudade que chega porque o presente perdeu uma parte da beleza e dos sorrisos.

O muro é alto, dá medo de escalar. E se a queda for inevitável? Não, não dá pra juntar de novo os pedacinhos tantas vezes colados; talvez nem haja pedacinhos, apenas pó. Por outro lado, permanecer em frente ao muro contemplando as imagens ainda tão vivas não deixa de ser doloroso. Superar o muro pode significar um futuro mais bonito; ao mesmo tempo, a idéia da queda faz recuar. Medo e esperança lutam outra vez, como fazem de tempos em tempos; difícil saber quem vencerá, pois medo e esperança nunca se enfrentam com as mesmas armas.

Quem não fala a verdade por medo de magoar acaba magoando duplamente. O silêncio pode ser uma bênção, mas por favor, que não seja usado sempre como forma de proteção.

Porque ele não protege ninguém; só sabe deixar por aí dúvidas e fazer crescer a decepção.
Quando faltam as palavras, eu me sinto sem chão. Vem uma inquietação insistente que não aceita a folha em branco, mas que é incapaz de enchê-la de letras.

Quando faltam as palavras, tudo dentro de mim fica sem tradução. Não há melhor tradução do que a feita pelas palavras.

Há pensamentos de sobra, mas o vocabulário de que disponho agora não é suficiente para expressá-los. É como se houvesse algo para dar à luz, uma coisa que por algum motivo não quer vir ao mundo. Angústias de quem escreve; melhor ainda, angústias de quem quer escrever.

Quando as palavras voltarem, eu também volto.

A flor

E chegou o dia em que o risco de permanecer apertada no botão

era mais doloroso que o risco necessário para florir.

Anais Nïn

Roubei descaradamente essa citação do canto da moça dos olhos caramelos. Espero que ela não fique brava pela minha falta de originalidade.

Eu preciso florir.

Esse botão já está ficando pequeno demais.

E florir dá medo.

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