histórias

Você está navegando pelos arquivos da categoria histórias.

Autorretrato

Era uma moça que tinha as palavras na palma da mão. Para todas as perguntas, diziam os amigos, tinha uma resposta; para todos os rostos, havia um retrato feito de letras. De sua boca, as palavras só vinham quando ela achava que valiam a pena. Por isso mesmo, gostava mais de escrever do que de falar; o papel não exigia que a boca dissesse aquilo que mais sensatamente caberia ao silêncio; o papel era um confessionário, um cofre onde ela guardava aquelas palavras, aqueles tesouros.

Um dia, ao acordar de um sono vivo, estendeu a mão, pegou o caderno de apontamentos que jazia no criado-mudo e, abrindo a janela para que o sol iluminasse o quarto, pôs-se a escrever sobre a vida que acabara de ter num sonho.

Era eu mesma diante de mim. Via cômo num espelho. Sim, era eu mesma, mas de um jeito diferente; não me reconheci de todo, mas seria impossível me enganar. Tinha um rosto de criança simples, criança que sorria indulgente. Alternava entre o sorriso e uma expressão triste de quem se sentia só. Lembrei-me das vezes em que, diante da superficialidade e da benevolência de quem me via com a fragilidade de uma criança, respondi com nada além do que esperavam de mim, numa atitude de quem guarda o melhor de si para alguém desconhecido.

Fiquei parada a olhar para aquele espelho, enquanto a imagem se desvanecia. Antes que eu pudesse desviar o olhar, surgiu outra de mim. Não pude deixar de sorrir ao me reconhecer outra vez, mas não com aquele sorriso infantil. Era uma moça crescida, com uma expressão distraída de quem sonhava. Usava um vestido azul, parecia muito leve. Eu podia esperar qualquer coisa naquele momento, menos ouvir a voz daquela moça, tão parecida com a minha própria: ‘Livre!’, foi sua única palavra, dita sem que a expressão sonhadora se modificasse. Sim, ela queria ser livre; ela já era livre, tinha a liberdade de quem sonha.

Agora quem sorria era eu, enquanto via a imagem se dissipar. Esperei para ver o que viria em seguida. Ao deparar, no espelho, com uma mulher idêntica a mim, estremeci. Nem sorriso de criança, nem olhar sonhador em que eu pudesse fazer alguma distinção. Era eu mesma: não mais uma menina, mas uma mulher inteira. Tinha uma expressão atenta, um olhar altivo, corajoso. Ela me olhava, mas tinha pressa. ‘O tempo’, ela disse, e eu não me espantava com mais nada daquilo. A ânsia de recuperar o tempo perdido e a vontade de servir-se do tempo que ainda lhe restava eram as coisas que a impulsionavam. Eu sabia, eu tinha certeza. Porque ela era eu.

Antes que a imagem desaparecesse, abri os olhos e vi-me na cama tão familiar. Agora, escrevo este autorretrato inexato, o qual o tempo, com sua sucessão de dias, definirá. Sou eu a menina? A moça sonhadora? A mulher confiante e decidida? Sou todas elas e muitas outras; não sei se chegarei a contar quantas sou, não sei se chegarei a saber de fato quem sou. Quando chegar o fim, pedirei aos meus amigos um caderno como este, para que eu possa descobrir mais uma mulher em mim e para ter certeza de que sou eu mesma no espelho daquelas palavras.

#

O texto acima é uma das tarefas que fiz para o curso Terapia da Palavra. Essa tarefa, a primeira do curso, exigia que fizéssemos uma autodescrição de nossas facetas, parodiando o texto Sobre Fernando Pessoa, de José Saramago. O que criei não foi uma paródia, mas um texto mais livre, com algumas paráfrases.

No site do curso, que pode ser feito presencialmente ou online, você poderá obter mais informações sobre a proposta e novas turmas.

Entre Raios e Trovões

    Era estranho ver tudo clareando depois de tanto tempo de bruma. Era estranho olhar para o jardim devastado e perceber que a água da chuva ia secando e que, em alguns cantos, surgiam discretos botões de flor.

    Naqueles dias, ela tinha o sol no coração; sol de raios tímidos que passavam, pouco a pouco, através das nuvens que teimavam em resistir e que ainda provocavam um medo irracional.

    ”Tudo eram estações”, ela dizia, tentando convencer-se de que tanto o sol quanto as chuvas iam e vinham.

Vendo a própria paisagem se modificar, com lágrimas mistas de terror, alegria e perplexidade, ela enfim descobriu: não podia mais ser um jardim selvagem; precisava construir um abrigo, um porto seguro que a protegesse quando viessem as intempéries.

Sagrado

Aprendeu, de uma hora para a outra, que insistir é bom, mas não resolve todos os problemas.

Abriu os caminhos, deixou tudo à mostra; não impediu, nem disse a ninguém o que fazer.

Ainda que tivesse de andar só, deixou que optassem.

Porque haveria um momento inevitável em que a escolha seria sua.

E escolher, estava claro, era sagrado.

Das Coisas Antigas

Passeando por alguns sites em que há muito tempo não navegava, encontrei um texto que escrevi há mais de dois anos.

Não me lembrava dele, muito menos do seu porquê, da história que inspirou outra história. Hoje, creio, eu não o escreveria; ou o escreveria de outra forma.

De qualquer maneira, resolvi compartilhar este texto de que não gosto, mas que achei curioso. Para ler, clique aqui.

Ainda bem que a gente evolui; na vida e na escrita.

Não adiantava, ela sabia, conquistar a lua; não adiantava conquistar o país, o planeta, o universo e o que quer que exista além dele, seja lá o que possa conter essa imensidão chamada universo; fácil de definir, difícil de imaginar.
Não, não lhe adiantavam as grandezas, porque sempre haveria um vazio. Não, um vazio não; sempre haveria um abismo que se formara sabe-se lá em que instante. Tão grande era o abismo, que faltava sempre um pedaço dentro dela. E tão escuro era, tantas coisas cabiam lá dentro… Tantas coisas caídas lá dentro… Quantas ela conhecia? Quantas ainda precisaria conhecer? Quantas permaneceriam ocultas para sempre?
Se sua história já se fazia imensa e cheia de detalhes, maior ainda era essa janela recém-descoberta, essa janela que dava para a escuridão.
Pouco a pouco, as coisas se revelavam; deixavam a escuridão desesperadamente, como pequenas porções de lava que precisam da superfície.
Susto: era isso que aqueles pequenos pedaços de matéria fervente lhe causavam. Alguns eram de extrema beleza; em outros, era inacreditável a falta de forma e o aspecto bruto. Lapidados; esses pedaços precisavam ser lapidados. Não à força, não pelas suas próprias mãos; o tempo: ela tinha a convicção de que o tempo, o sol, a chuva, os dias presentes e os futuros o fariam, porque era assim que devia ser, porque a natureza era maior e mais cuidadosa do que suas mãos.
Queria gritar, chamar: “Vem! Vem ver a explosão!”
Não. De repente, preferiu o silêncio. Preferiu ouvir sozinha a explosão. E decidiu que só chamaria, gritaria e levaria pela mão quando se acostumasse a olhar o espetáculo por aquela janela tão nova.
Não, não lhe satisfaziam as grandezas da lua, do planeta, do país, do universo. O mais importante, ela pensou, era conhecer o mistério do seu próprio abismo e revelá-lo com atenção e verdade.

« Entradas antigas