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Das Coisas Antigas

Passeando por alguns sites em que há muito tempo não navegava, encontrei um texto que escrevi há mais de dois anos.

Não me lembrava dele, muito menos do seu porquê, da história que inspirou outra história. Hoje, creio, eu não o escreveria; ou o escreveria de outra forma.

De qualquer maneira, resolvi compartilhar este texto de que não gosto, mas que achei curioso. Para ler, clique aqui.

Ainda bem que a gente evolui; na vida e na escrita.

Não adiantava, ela sabia, conquistar a lua; não adiantava conquistar o país, o planeta, o universo e o que quer que exista além dele, seja lá o que possa conter essa imensidão chamada universo; fácil de definir, difícil de imaginar.
Não, não lhe adiantavam as grandezas, porque sempre haveria um vazio. Não, um vazio não; sempre haveria um abismo que se formara sabe-se lá em que instante. Tão grande era o abismo, que faltava sempre um pedaço dentro dela. E tão escuro era, tantas coisas cabiam lá dentro… Tantas coisas caídas lá dentro… Quantas ela conhecia? Quantas ainda precisaria conhecer? Quantas permaneceriam ocultas para sempre?
Se sua história já se fazia imensa e cheia de detalhes, maior ainda era essa janela recém-descoberta, essa janela que dava para a escuridão.
Pouco a pouco, as coisas se revelavam; deixavam a escuridão desesperadamente, como pequenas porções de lava que precisam da superfície.
Susto: era isso que aqueles pequenos pedaços de matéria fervente lhe causavam. Alguns eram de extrema beleza; em outros, era inacreditável a falta de forma e o aspecto bruto. Lapidados; esses pedaços precisavam ser lapidados. Não à força, não pelas suas próprias mãos; o tempo: ela tinha a convicção de que o tempo, o sol, a chuva, os dias presentes e os futuros o fariam, porque era assim que devia ser, porque a natureza era maior e mais cuidadosa do que suas mãos.
Queria gritar, chamar: “Vem! Vem ver a explosão!”
Não. De repente, preferiu o silêncio. Preferiu ouvir sozinha a explosão. E decidiu que só chamaria, gritaria e levaria pela mão quando se acostumasse a olhar o espetáculo por aquela janela tão nova.
Não, não lhe satisfaziam as grandezas da lua, do planeta, do país, do universo. O mais importante, ela pensou, era conhecer o mistério do seu próprio abismo e revelá-lo com atenção e verdade.

As caixinhas enfileiravam-se por toda a prateleira, que tomava completamente a parede branca. Pequenas e grandes; de madeira, plástico, cartão; quadradas, redondas, ovais; brancas, cor-de-rosa, estampadas com flores.

Eram diferentes, mas todas guardavam fragmentos de quem as colecionava. Ela amava suas caixas, a coleção de que nunca se desfaria; mas o que havia dentro delas eram objetos de um amor maior, que a enchiam até fazê-la transbordar de alegria e de saudade.

Aqueles não eram fragmentos seus; eram parte daqueles que deixaram pedaços de si que, de tão perfeitos, encaixavam-se nela como se tivessem molde exclusivo.

Entre tantas cores e formas, havia um coração; não era vermelho, era prateado. A única caixa trancada. Uma pequena fechadura destacava-se da parte frontal do coração. Era ali dentro que ela guardava os menores e mais preciosos bens; esses não eram de ninguém mais senão dela mesma. Eram pedras; ela sabia que, um dia, necessitariam delas tanto quanto ela necessitava dá-las para alguém. O rubi-oriental, ela guardava para os dias que precisasse encher de paixão; a esmeralda serviria para quando o amado precisasse de paz; seria a maneira que ela encontraria para lembrá-lo da esperança; o diamante bruto, o mais bem guardado, era a história que um dia começaria; demoraria a ser lapidado, a se tornar brilhante. Mas essa não seria uma tarefa só dela, ela precisaria de ajuda, uma ajuda que partiria de alguém que ainda viria. Seria o amado, merecedor daqueles tesouros; o amado, que possuía a pequena e única chave capaz de abrir o coração de prata.

Dentro do Frasco

Ela voltou para casa feliz, encantada. Dentro da bolsa, o frasco de perfume recém-adquirido. Aquele líquido, a mistura sublime dos aromas, integraria, daquele momento em diante, sua identidade. O frasco roxo guardava a síntese do que queria exalar: a delicadeza, o desejo, a expectativa, a presença discreta.

Ela se orgulhava. Orgulhava-se de perceber pelo aroma dos seres e das coisas traços ocultos, ignorados pelos outros sentidos: altivez, pretensão, simplicidade, sensualidade. Por isso, demorava-se tanto no ritual de escolher a fragrância que contaria ao mundo quem ela era, a fragrância que a acompanharia dia após dia.

Sentia um pesar inescapável ao pensar que as essências eram tão negligenciadas por outras pessoas, gente incapaz de notar as mensagens transmitidas por elas. Ela sabia que só era preciso isto mesmo: notar, perceber; porque certas coisas não existem para serem entendidas ou ditas.

Com o frasco na mão, via sua felicidade se dissipar. Ela lamentava somente o fato de que aquelas sensações e delícias não podiam ultrapassar a virtualidade, eram incapazes de comunicar aquilo que não pode ser expresso pelas palavras que voam por ondas, trafegando por quilômetros até pousarem impunes em alguma tela mornamente iluminada.

Quando criança, disseram-lhe que as roseiras eram belas.

Na primeira vez em que tocou em uma, maravilhada pela chance de conhecer aquilo de que tanto lhe falavam, espetou o dedo num espinho. Sangrou.

Durante muito tempo, ela nunca mais quis saber de roseiras, não podia nem ouvir falar delas.

Até que esqueceu a dor. Mais uma roseira; mais euforia dentro dela; mais um toque; mais um espinho; mais sangue; mais dor.

Um dia, sonhou com uma rosa branca. Sempre gostou mais das brancas; as vermelhas lembravam sangue. A rosa branca estava só, ela perguntava-se de onde havia vindo; não podia ser das roseiras, não das que conhecia. Aquelas só tinham espinhos, não tinham rosa alguma. Mas, se não tinham rosas, por que, então, eram roseiras? Havia algo errado.

Aquela rosa branca a fez esquecer a dor. Outra vez. A memória e as coisas lindas eram traiçoeiras. Não fossem elas, jamais seguiria; graças a elas, seguia, embora a passos cada vez mais lentos. A rosa solitária desapareceu tão de repente quanto surgiu. Deixou-a só.

Ela queria parar, mas as roseiras a fascinavam. Se não havia rosas, por que roseiras?

E seguia, com o que sobrara dos espinhos e com esperança: para ela, para as rosas brancas e, um dia, quem sabe, para as vermelhas também.

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