interior

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Estava procurando uma ideia que pudesse escrever aqui. Nada muito complicado, algo que me viesse fácil. Procurei, pensei, mas não encontrei. Quando parei de procurar, encontrei, no blog da Clarice, sua lista de vontades doidas, absurdas, que não passam e só aumentam.

Simples! Resolvi fazer a minha. E se você quiser, faça a sua também, nos comentários ou no seu próprio blog.

Algumas das minhas nem são tão absurdas assim, mas são vontades; e por isso mesmo, importantes:

  1. Viajar pra Barcelona.
  2. Tomar banho de chuva deitada na grama.
  3. Compor uma música no piano.
  4. Voltar no tempo e revisar partes da minha história.
  5. Saber o que vem pela frente.
  6. Ganhar um presente dado com amor.
  7. Reunir todos os meus amigos que não se conhecem (são tantos e tão diversos!).
  8. Não precisar de coisa alguma.
  9. Tocar uma nuvem.
  10. Trazer o amado para perto e ser a única a andar ao seu lado.

Autorretrato

Era uma moça que tinha as palavras na palma da mão. Para todas as perguntas, diziam os amigos, tinha uma resposta; para todos os rostos, havia um retrato feito de letras. De sua boca, as palavras só vinham quando ela achava que valiam a pena. Por isso mesmo, gostava mais de escrever do que de falar; o papel não exigia que a boca dissesse aquilo que mais sensatamente caberia ao silêncio; o papel era um confessionário, um cofre onde ela guardava aquelas palavras, aqueles tesouros.

Um dia, ao acordar de um sono vivo, estendeu a mão, pegou o caderno de apontamentos que jazia no criado-mudo e, abrindo a janela para que o sol iluminasse o quarto, pôs-se a escrever sobre a vida que acabara de ter num sonho.

Era eu mesma diante de mim. Via cômo num espelho. Sim, era eu mesma, mas de um jeito diferente; não me reconheci de todo, mas seria impossível me enganar. Tinha um rosto de criança simples, criança que sorria indulgente. Alternava entre o sorriso e uma expressão triste de quem se sentia só. Lembrei-me das vezes em que, diante da superficialidade e da benevolência de quem me via com a fragilidade de uma criança, respondi com nada além do que esperavam de mim, numa atitude de quem guarda o melhor de si para alguém desconhecido.

Fiquei parada a olhar para aquele espelho, enquanto a imagem se desvanecia. Antes que eu pudesse desviar o olhar, surgiu outra de mim. Não pude deixar de sorrir ao me reconhecer outra vez, mas não com aquele sorriso infantil. Era uma moça crescida, com uma expressão distraída de quem sonhava. Usava um vestido azul, parecia muito leve. Eu podia esperar qualquer coisa naquele momento, menos ouvir a voz daquela moça, tão parecida com a minha própria: ‘Livre!’, foi sua única palavra, dita sem que a expressão sonhadora se modificasse. Sim, ela queria ser livre; ela já era livre, tinha a liberdade de quem sonha.

Agora quem sorria era eu, enquanto via a imagem se dissipar. Esperei para ver o que viria em seguida. Ao deparar, no espelho, com uma mulher idêntica a mim, estremeci. Nem sorriso de criança, nem olhar sonhador em que eu pudesse fazer alguma distinção. Era eu mesma: não mais uma menina, mas uma mulher inteira. Tinha uma expressão atenta, um olhar altivo, corajoso. Ela me olhava, mas tinha pressa. ‘O tempo’, ela disse, e eu não me espantava com mais nada daquilo. A ânsia de recuperar o tempo perdido e a vontade de servir-se do tempo que ainda lhe restava eram as coisas que a impulsionavam. Eu sabia, eu tinha certeza. Porque ela era eu.

Antes que a imagem desaparecesse, abri os olhos e vi-me na cama tão familiar. Agora, escrevo este autorretrato inexato, o qual o tempo, com sua sucessão de dias, definirá. Sou eu a menina? A moça sonhadora? A mulher confiante e decidida? Sou todas elas e muitas outras; não sei se chegarei a contar quantas sou, não sei se chegarei a saber de fato quem sou. Quando chegar o fim, pedirei aos meus amigos um caderno como este, para que eu possa descobrir mais uma mulher em mim e para ter certeza de que sou eu mesma no espelho daquelas palavras.

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O texto acima é uma das tarefas que fiz para o curso Terapia da Palavra. Essa tarefa, a primeira do curso, exigia que fizéssemos uma autodescrição de nossas facetas, parodiando o texto Sobre Fernando Pessoa, de José Saramago. O que criei não foi uma paródia, mas um texto mais livre, com algumas paráfrases.

No site do curso, que pode ser feito presencialmente ou online, você poderá obter mais informações sobre a proposta e novas turmas.

Há pessoas que só acreditam que algo é verdadeiro quando não há simplicidade. Para essas pessoas, um fato não pode ser verdadeiro se for simples demais. Por isso, torna-se difícil acreditar nas palavras de alguém que não tem segundas intenções, que não se aproveita de subterfúgios para se relacionar.

A cada dia, estou mais convencida de que o julgamento realmente não é algo bom de se fazer. Não porque minha natureza não goste de julgar; a minha, como a da maioria dos seres humanos, gosta, e muito. O problema começa quando somos obrigados a lidar com o outro lado da moeda. Quando alguém coloca suas ações e intenções dentro de uma caixinha e as molda exatamente como gostaria que elas fossem, destrói todo um mar de coisas que não conhece; ignora seu jeito de levar a vida, suas observações, distrações, escolhas e preferências.

É difícil aceitar que há pontos de vista diferentes; é difícil compreender que o outro não entende as coisas como você ou a maioria entende, ou simplesmente que o outro não percebe certas coisas.

Suponha que você está diante de uma discussão, da qual participam duas pessoas, A e B, e que é presenciada por um grupo relativamente grande. Em determinado momento, A, para se defender da acusação de B, referente a algo que A havia dito, pergunta a você: “Você me ouviu dizer isso?” Ao que você responde “Não, eu não ouvi”. Você não faz isso para defender A, faz somente porque de fato não ouviu nada; estava prestando atenção a algo mais, distante da discussão e do grupo; você simplesmente se “desligou” daquela atmosfera desagradável. As pessoas ao redor olham com espanto para você, como se dissessem “Como você não ouviu? está tão claro!”, mas você não pode fazer nada; a verdade é a verdade e pronto. Todos estão cientes do que foi dito e do que não foi, mais cientes do que você. Porém, ninguém tem coragem suficiente para dizer uma palavra; todos só têm coragem de te julgar sem palavras, de duvidar da única verdade que você consegue dizer. Cada qual o coloca em sua caixinha de modelar, tentando igualar suas atitudes àquelas que eles talvez tivessem, estabelecendo seus próprios parâmetros.

Se você opta por não julgar, isso não significa que acredita em tudo o que lhe disserem; significa somente que você sabe que, fora de você, há mil pontos de vista e nuances que fogem ao seu controle e conhecimento.

Do que se perdeu

Poderia ter sido bom.

Poderia ter sido uma experiência a mais.

Poderia estar acontecendo agora.

Poderia ser mais uma gota de felicidade no meio de tanta aridez.

Poderia ser uma amizade sincera.

Mas o medo nos paralisa, não adianta. Às vezes, nos trava.

Achamos melhor deixar para lá, deixar para depois, para trás.

Mas o que deixamos para trás dificilmente fica lá.

A coisa nos acompanha, o velho fantasma do “e se eu tivesse feito diferente?” parece nunca ter descanso. De vez em quando, na queda de braço, conseguimos fazê-lo cair e calar por algum tempo; porém, ele sempre volta.

Um e-mail antigo, encontrado entre tantos bytes sem importância, guardado sabe-se lá por qual mistério, nos faz entender que já se passou muito tempo; que tentar recuperar o tempo perdido é banalidade; que o mundo já deu milhares de voltas; que agora, o que nos resta são nossas próprias escolhas, felizes ou não.

Enquanto isso…

Enquanto nada acontece, os desejos e as esperanças continuam suspensos. Parados, estáticos, quietos, tanto faz; mais as esperanças do que os desejos, porque estes, no fundo, nunca se acalmam.

E eu continuo aqui, esperando e tentando fazer com que tudo se mexa, com que haja movimento; esperando que tudo caia de uma vez sobre a minha cabeça, não como o raio que imobiliza e destrói, mas como a chuva renovadora que nos dá vontade de caminhar.

Pode até fazer sentido, pode não fazer sentido algum; às vezes depende mais de quem lê, nem tanto de quem escreve.

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