O cotidiano rouba muitas coisas. A pior delas é a familiaridade com o que antes parecia tão simples, quase imperceptível de tão simples. Os mesmos acontecimentos vão preenchendo os dias, vão enchendo de nada as horas tão sagradas de cada volta da Terra sobre si mesma. Vem o tic tac do relógio perturbar o silêncio escasso. Vem o movimento, que exige de nós o fôlego, a resposta, o mecanismo. Vai-se o pensamento. Perdêmo-lo de vista, não o encontramos mais. Vai um pouco de nós com ele. Vão-se também as palavras; aquelas que nos transbordavam, que nos comunicavam, que nos traduziam e davam forma ao mundo. Subitamente, é fácil perceber: com tudo o que some, some também aquilo que nos alivia: a intimidade com as palavras.
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Toc toc toc.
Batidas secas e ressonantes.
A única resposta é o vazio, que não diz nada.
E o pior vazio é mesmo este, que, respondendo a um chamado, não trás respostas, só mais perguntas.
E o pior vazio é mesmo este, que não sabe, por mais que lhe perguntem, qual é a melhor forma de preenchê-lo.
Seus olhos lhe pregam a mesma peça todos os dias. Você confia tanto neles, não é? Enquanto isso, eu rio deles. Não posso evitar, não posso ter outra reação. Você quase me esmaga ao passar, mas eu resisto. Volto à forma original instantes depois de você me atravessar com os pés. Você confia tanto em seus olhos, mas os meus podem ver além deles. É por essa confiança que você fala demais; fala do que vê, do pouco que sabe e do que sequer conhece. Você pode não acreditar, talvez não seja capaz de ouvir, porque sua visão, ainda que distorcida e só sua, ofusca todos os sons, todos os toques, todos os odores e todos os sabores; você não se importa, mas seus olhos não lhe deixam ser livre. Chegue mais perto. Feche os olhos por um instante. Inspire. Fique em silêncio. Medo? Só por um instante, você se acostuma. Escute, apenas escute. Sim, faz muito tempo que você não escuta, não repara, não sente. Faz muito tempo que você não é livre. Agora olhe novamente. Não, não dessa forma displicente! Olhe calmamente, na quietude de quem aprende. Consegue perceber? Não é só você que olha. Consegue perceber agora que também é alvo de olhares? Para terminar, tenho um presente para você: pegue, esse espelho é seu. Por que o espanto? Essa imagem refletida é a sua, não a reconhece? Você não se vê tão grande como antes, não é mesmo? Em compensação, tudo ao seu redor está maior; não é curioso? E tudo tão diferente, tantos detalhes antes desconhecidos… Melhor jogar fora aquele baú onde você costumava guardar as imagens alheias; esses rostos novos, cheios de detalhes, não cabem mais nele. Talvez não caibam mais em lugar algum; só lhe resta expandir-se, para acolher dentro de si tudo o que trará esse novo olhar. Feche os olhos, sinta, fique em silêncio e escute. Muito… Só assim poderá ver de fato.
“As pessoas deveriam nascer e escolher o tipo de vida que querem levar.” # Frase de uma amiga, durante uma conversa no MSN, que me pegou de surpresa. As coisas não funcionam assim, todo mundo sabe; mas quem nunca disse ou pensou algo semelhante quando falta alguma coisa? Mudar é preciso, mas às vezes exige de nós atitudes que levamos muito tempo para descobrir; e mais tempo ainda para tomar. Escolhendo de antemão o nosso destino, estaríamos menos sujeitos à imprevisibilidade da vida. E isso me faz pensar que, do mesmo modo como não sentiríamos dor, também não seríamos capazes de nos surpreender conosco e com os outros, de nos emocionar ao receber uma dádiva, de sermos pegos de surpresa pelas sensações que só o inesperado pode nos trazer… Seria seguro, mas a vida sem frio na barriga, sem lágrimas na hora certa e sem risadas gostosas por bobagens estaria à beira do abismo. Além do mais, perderíamos um dos mais preciosos direitos que temos: o de voltar atrás e começar tudo outra vez.
Sorrir sem ter por quê. Amar sem o ser. Perceber sem ser percebido. Criar para deixar ir. Escutar e silenciar. Seguir com o coração aos pulos. Andar, mesmo quando todo o seu ser pede descanso. Crer sem ver. Cativar e aceitar. Deixar-se ser cativado. Sentir dor e chorar. Mudar de rota de vez em quando. Espalhar boas e sinceras palavras. Esquecer as ruins. E, depois de tudo isso, sentir o dia passar. Em paz.
