Comecei 2009 aprendendo a beber a vida em pequenos goles. Há não muito tempo, eu seria capaz de projetá-la, elaborando planos e tendo idéias mirabolantes sobre o que seria ou não possível, estabelecendo limites para os meus próprios sonhos e desafios. Chega o ano chamado novo e com ele vem a surpresa, o inesperado. Quando você vê por um fio a vida de alguém que ama, pode acreditar: algumas de suas concepções vão mudar de uma hora para outra. Você começa a tentar tirar de cada momento um pouco de vida, e o mais espantoso é que consegue fazer isso; faz até mesmo com a rotina que antes era tão maçante e perturbadora, transformando-a no seu conforto, no seu alívio. Alívio de, todos os dias, chegar em casa e encontrar as coisas do jeito que você as deixou antes de sair; alívio de poder conversar sobre amenidades sem culpa, só pelo prazer de não ter nada mais urgente com que se preocupar; alívio de ter sempre as mesmas chateações, tão corriqueiras como o seu mau humor. Uma vida por um fio deixa a certeza de que nada nunca mais será da mesma forma, apesar de toda a capacidade de adaptação de um ser humano. Reinventamos as alegrias moldando-as às nossas tristezas, porque de outra forma seria impossível continuar no mundo. Desafio é fazer isso sem adquirir certo cinismo implacável, que nos gela só de pensar. Há pessoas tão fantásticas que conseguem nos fazer refletir até quando estão com a vida por um fio, dando a nós lições preciosas, mesmo tendo freqüentado a escola durante pouquíssimos anos. É óbvio: diploma não é sinônimo de sabedoria. Comecei 2009 aprendendo que viver intensamente é não encarar nenhum dia como perdido, por mais sem graça que ele pareça; pois lá está a vida em toda a sua plenitude, tão imperceptível que só conseguimos notar sua presença quando assistimos, sem nada poder fazer, à sua caminhada na corda bamba.
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No fim das contas, 2008 acabou e eu nem me despedi dele, pelo menos aqui. Na verdade, negligenciei este blogue nos últimos tempos, atitude da qual não me orgulho. A verdade é que ter um “blogue Frankenstein”, onde se escreve de tudo e não há assunto constante, não é fácil. São tantas idéias, tantos pensamentos e tantas palavras, que dá medo. Medo de tornar tudo heterogêneo demais, sem importância, sem unidade, sem corpo. Mas talvez esse seja o grande mérito – se é que há algum –, o traço que define e diferencia este espaço e que faz com que gente muito bacana, inclusive alguns desconhecidos, passem por aqui, voltem e insistam. Não é exagero dizer que é por isso que eu continuo, apesar de ser uma amadora; cada comentário é um incentivo, cada visita, ainda que silenciosa, é um estímulo. Não sei o que esperar de 2009, principalmente para este espaço. Prefiro contar com o imprevisível e seguir em paz, escrevendo para desabafar, criar, construir, traduzir, admirar, gritar, expor, dividir, mudar… Por mais 365 dias, os quais encaro como presentes; alguns evidentes, alguns sutis e ocultos, que custam a serem abertos e entendidos. O primeiro dia do ano chamado novo não muda as coisas, é só uma questão de calendário. Mas precisamos de ciclos, precisamos de fórmulas para controlar o tempo, algumas vezes tão amigo, outras tão traiçoeiro. E é por isso que divido aqui meu único desejo para os próximos 365 dias: seguir reconhecendo naqueles que fazem parte da minha vida, hoje e no futuro, uma dádiva e uma preciosidade singular.
O Coldplay lançou um dos álbuns mais bonitos deste ano: Viva la Vida or Death and All His Friends. Quando ouvi Violet Hill, a faixa que a banda disponibilizou para download em seu site oficial há alguns meses, não me encantei; achei que seria mais um álbum tão insosso como foi X & Y, de 2005 (e é claro que há exceções, como a deliciosa The Hardest Part). Quando Viva la Vida começou a tocar nas rádios, também não vi muita graça; para falar a verdade, não prestei muita atenção nela. Fiquei mais atenta quando minha mãe (sim, minha mãe, acostumada a ouvir em casa bandas como Radiohead e Keane) me perguntou quem cantava aquela música linda que ela havia ouvido no rádio. Respondi à pergunta e passei a ouvir Viva la Vida com mais carinho. Não demorou muito para eu ter vontade de ouvir o cd todo. Não me arrependi, pois a banda conseguiu fazer mesmo um trabalho mais “colorido”, como era sua intenção, inspirando-se nas tão famosas “cores de Frida Kahlo”. Viva la Vida or Death and All His Friends é repleto de arranjos bem construídos, que o enchem de delicadeza sem fazer dele um disco banal. Equilibra muito bem a noção de vida e morte, descrita já no título. É bom para ouvir na primavera, essa estação tão indecisa, que ora trás dias agradáveis e leves, ora trás, como lembrança do inverno que passou, um vento frio e triste, capaz de ainda arrepiar.
Não consigo escrever. Não consigo pensar. Ou melhor, pensar eu até consigo, mas meus pensamentos têm sido monocromáticos; de uma nota só; fixos… E é chato demais vir aqui e despejá-los desesperadamente, como se os leitores tivessem a obrigação de prestar atenção às minhas divagações e à minha inércia. Tem um mar revolto aqui dentro e eu preciso entender o que anda acontecendo. Preciso esperar essas ondas todas pararem de bater nas minhas pedras, que espero serem fortes o suficiente. Enquanto meu silêncio contempla, respeitosamente, o barulho desse mar que ainda me dá medo e me inspira uma certa melancolia, nada posso fazer. Apenas esperar e deixar todas as folhas do mundo brancas, exatamente como foram feitas. Quando minhas palavras deixarem de ser à toa e mudarem de tom, voltarei a escrevê-las com todo o prazer desse mundo.

