A volta

Eu vou, eu desisto, mas volto e insisto. Foi exatamente o que fiz ontem, com este blog.

Há algum tempo, algumas pessoas próximas e queridas têm me cobrado: “Quando vai voltar a escrever? Por que não atualiza mais o blog?” Até um pen drive eu ganhei, exclusivamente para guardar meus textos; sim, presente com segundas intenções, mas que vai ser usado somente para isso mesmo.

Pensei nas possibilidades. Fui até o blog antigo e reli boa parte do que foi publicado lá, de 2006 até 2009. De algumas coisas me orgulhei, de outras me envergonhei. Mas o mais importante foi perceber que aquela coleção de pensamentos significa mais para mim do que eu poderia imaginar. Não são só palavras, mas existe, por trás de cada texto, uma história, por mais distante que ela possa estar da minha atual realidade.

Não precisei pensar muito para tomar a decisão: peguei todos os textos e trouxe-os para cá. Importei todo o meu antigo blog para este espaço. É claro que veio a tentação de cortar as passagens mais irrelevantes e revisar tudo, mas, como diz um querido amigo e grande incentivador, parafraseando Arnaldo Antunes, antes de existir o revisor, existia o escritor. Além do mais, como eu já disse, e desculpem-me se estou sendo repetitiva, tudo faz parte da minha história.

Descobri também que não consigo escrever sobre um único tema. A ideia de fazer um blog segmentado sobre literatura era boa, mas minha escrita não serve para mergulhar em um pequeno mundo e dele retirar seu substrato. Não que a literatura seja um pequeno mundo, muito pelo contrário. Todavia, o cotidiano tem coisas boas demais para serem exploradas, dentro e fora dos livros, e quero abraçar e compartilhar todas as que puder.

Por isso, a garota das palavras volta a tecer sua colcha de retalhos, pois aprendeu a importância de cada um.

O trabalho do escritor é um dos que mais me intrigam. Transformar sentimentos, reações e sensações em palavras nem sempre é tarefa fácil, principalmente quando as palavras não vêm de dentro de nós. Para quem não entendeu, eu explico: escrever sobre o que há por dentro de mim é imensamente mais simples do que me colocar em situação inteiramente fictícia, a qual eu não tenha vivido ou presenciado.

Quando Fernando Pessoa disse que “o poeta é um fingidor”, expôs toda a flexibilidade de que um bom escritor é capaz. Como escrever sobre aquilo que não vem de mim? Como não transpirar minha tristeza, meus medos, minha euforia de maneira tão explícita? Como inserir num texto a emoção própria em pequenas doses, para não empobrecê-lo? Sim, porque todo texto carregado da emoção que vem do autor, se não for bem cuidado, torna-se repetitivo, um atentado contra a originalidade.

Não quero dizer que um texto não possa ter nenhum tipo de emoção; um texto sem emoção não arrebata o leitor (e isso falo com base nas experiências que tenho como leitora). Arrisco-me a dizer, no entanto, que um escritor, antes de trabalhar com as palavras, precisa trabalhar sua mente, para que até seus conflitos sejam uma obra de arte.

Gosto bastante de epígrafes, aqueles fragmentos de texto frequentemente encontrados no início de uma narrativa, seja conto, seja romance, que dizem muito (ou pelo menos tentam) sobre o conteúdo subseqüente. Algumas epígrafes fracassam, a escolha do autor nem sempre é boa; mas outras, em compensação, nos dão boa ideia do que encontraremos em seguida, além de trazerem referências sobre obras que possam ser de nosso interesse.

Justamente porque dou tanta atenção às epígrafes, por vezes tão injustiçadas, é que decidi reservar um espaço a elas aqui no blogue. De tempos em tempos, trarei fragmentos marcantes, tanto pela intensidade quanto pela sua importância no contexto das obras às quais pertencem.

Hoje, apresento-lhes a epígrafe do romance “Reparação”, escrito por Ian Mcewan. Poucas vezes li uma epígrafe que se encaixasse tão bem numa obra. Para quem não conhece nem o fragmento nem o romance de Mcewan, fica a dica de duas ótimas leituras, ambas tratando das tragédias que um mal-entendido pode causar.

Cara senhorita Morland, pense o quanto são horrorosas as suspeitas que tem nutrido. Em que se fundamentam tais julgamentos? Pense em que país e em que era vivemos. Lembre que somos ingleses, que somos cristãos. Consulte seu próprio entendimento, seu senso do que é provável, sua observação do que se passa à sua volta. Como nossa formação poderia nos preparar para tais atrocidades? Como nossas leis seriam coniventes com elas? De que modo coisas assim poderiam ser perpetradas sem que ninguém delas soubesse num país como este, em que as relações sociais e literárias são como são, em que cada homem está cercado por toda uma vizinhança de espiões voluntários, e as estradas e os jornais deixam tudo às claras? Querida senhorita Morland, que idéias a senhorita tem se permitido conceber?"

Haviam chegado ao final da galeria, e com lágrimas de vergonha ela foi embora correndo para seu quarto.

Jane Austen, A Abadia de Northanger

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Arma Poderosa

Capa de "o Jogo do Anjo"

De uma das melhores leituras que fiz este ano: O jogo do Anjo, escrito por Carlos Ruiz Zafón:

 

O talento natural é como a força de um atleta. Alguém pode nascer com maior ou menor capacidade, mas ninguém chega a ser um atleta simplesmente porque nasceu alto, forte ou rápido. O que faz o atleta, ou o artista, é o trabalho, o domínio do ofício e a técnica. A inteligência inata é simplesmente munição. Para chegar a fazer alguma coisa com ela é necessário transformar sua mente numa arma de precisão.

Quanto mais só eu me sinto,

mais parte do mundo eu sou.

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